Prestes a desembarcar no Brasil para apresentar seu evento autoral intitulado Sunsetstrip, o lendário DJ e produtor argentino Hernan Cattaneo concedeu uma entrevista exclusiva à Jon Facchi, jornalista que acompanha a trajetória do ‘’el maestro’’ desde 2010 e que com ele construiu uma relação próxima ao longo dos anos. Hernan fala sobre o conceito do seu evento que começa de dia no Campo De Marte em São Paulo, um pouco de sua trajetória na última década, que considera a mais importante de sua carreira de mais de 40 anos, além claro, do anúncio de sua apresentação em uma das últimas datas no Templo da música eletrônica. Confira.

Jonas Facchi: Olá Hernán como está!
Está completando 10 anos da nossa primeira entrevista, quantas coisas incríveis aconteceram nesta última década. Como você avalia esse período da sua carreira? Claramente você alcançou um novo patamar em todos os sentidos.
Hernan Cattaneo: Olá, Jonas – Não acredito que já se passaram dez anos desde a primeira entrevista que fizemos juntos. Que bom que ainda estamos por aqui! :)))
O tempo voa tão rápido e, olhando para trás, sinto que esta última década foi uma das mais especiais de toda a minha carreira. Muitas das minhas melhores lembranças são deste período. Fico feliz que você tenha estado cobrindo os shows por tantas vezes :)
Para avaliar… Se você pensar bem, no início dos anos 2000, nosso som provavelmente estava no seu auge no mundo todo, mas depois, por um longo tempo, quando o EDM dominou o mundo, nos tornamos um pequeno nicho. A América do Sul era realmente o epicentro, mas fora daqui não tinha muita relevância. Então, como um DJ popular no meu país, senti que era importante assumir um papel na expansão da cena – primeiro consolidando-a em casa e depois tentando mostrá-la a um público maior globalmente. Foi um grande desafio, porque nenhum outro DJ do nosso estilo tentou isso antes. O prog house sempre esteve mais voltado para o lado underground do mundo da música eletrônica. Tocar nosso som para públicos maiores não é uma tarefa fácil, porque não se trata de música mainstream e você precisa ter um equilíbrio para manter sua identidade musical, mas, ao mesmo tempo, tentar entreter e manter algumas pistas de dança 10 vezes maiores do que as que costumamos tocar. Uma ótima faixa que funcionou perfeitamente em um clube com capacidade para 2.000 pessoas pode passar totalmente despercebida em um festival com capacidade para 15.000 pessoas – é algo totalmente diferente. Agora, ver o quanto isso evoluiu na última década é realmente gratificante. Isso me deixa muito feliz por toda a comunidade de artistas, promotores e fãs que continuaram acreditando neste som e agora estão aproveitando os benefícios. Agora temos uma cena de progressive house maior e mais saudável do que nunca, com jogadores de ponta liderando festivais com 20 mil pessoas e também um mundo underground muito novo, cheio de gerações mais jovens trilhando seu próprio caminho.
JF: Na última semana você esteve no Balance Festival, um evento sonhado por todos os fãs de progressive house. Superou minhas expectativas, que já eram altas, parece que todos os DJs tentaram fazer o set do ano… o que você sentiu?
HC: O Balance Festival foi honestamente um sonho que se tornou realidade – não só para mim, mas para todos que amam progressive house. Estamos acostumados a ver esse tipo de line-ups de qualidade na América do Sul, com eventos como Sunsetstrip ou as turnês do Warung, The Edge ou showcases de gravadoras como Soundgarden, We Are Lost ou nossa própria Sudbeat, mas na Europa isso quase nunca acontece. Lá, o foco tem sido techno ou qualquer que seja a tendência do momento, então ver de repente um line-up completo de artistas representando nosso som, todos juntos, foi histórico. Tenho certeza de que se tornará um ótimo ponto de referência para futuros eventos desse tipo. Um enorme respeito à Balance por tornar isso possível. Como artistas, é claro que todos queríamos estar no nosso melhor. Era importante para cada um de nós mostrar por que estávamos lá e o que representamos. Mas a energia não era sobre competição – parecia mais com uma Seleção, com os melhores jogadores do estilo jogando no mesmo time. Se eu tivesse que comparar, era como uma final da Liga dos Campeões, mas em vez de rivais, estávamos todos construindo algo juntos. O resultado foi um fim de semana inesquecível que pertenceu aos fãs tanto quanto a nós.

JF: No dia 20 de setembro você volta ao Brasil trazendo desta vez seu evento autoral Sunsetstrip, na qual eu já tive oportunidade de prestigiar na Argentina. O que você percebeu em nossa cena para trazer o evento para São Paulo?
HC: Tenho uma relação muito longa e especial com o Brasil. Toco aí há décadas e, sempre que vou, sinto o mesmo calor e paixão das pessoas. Então, quando começamos a pensar em levar o Sunsetstrip para fora da Argentina, o Brasil foi naturalmente uma das primeiras opções. A verdade é que os brasileiros adoram festejar, o nível de produção dos nossos parceiros nos eventos é altíssimo, o país tem locais incríveis ao ar livre e, além disso, o som progressivo tem crescido muito nos últimos anos. Então, as condições estavam todas reunidas para trazermos o Sunsetstrip para São Paulo. Parece o lugar perfeito para o conceito, e acho que vai ser incrível.
JF: O conceito de locais abertos e ao entardecer se conecta com o novo modo de consumir música das novas gerações, mas também tem haver com a cena argentina na época que foi criado em 2019, certo?
HC: A ideia do Sunsetstrip nasceu em 2019, quando voltei para Buenos Aires depois de 15 anos na Europa. Naquela época, percebi que a imagem da música eletrônica na Argentina não estava muito boa. O público em geral e a mídia tinham muitas ideias equivocadas sobre ela, frequentemente associando-a a ideias negativas. Então, com Cruz, meu empresário e amigo próximo, começamos a pensar em como poderíamos mudar essa percepção. Sentíamos que a música em si era incrível, mas talvez não a estivéssemos apresentando no contexto certo. Não tenho nada contra casas noturnas – elas sempre foram uma parte fundamental da cultura – mas na Argentina elas carregavam muitas associações negativas. Então pensamos: e se a trouxermos para o dia, em um ambiente ao ar livre e natural? Foi assim que o Sunsetstrip nasceu. A mudança foi imediata e muito positiva. Nossa primeira edição foi no Campo de Polo com 10.000 pessoas, e a última edição, em maio, teve 40.000 participantes, todos para prestigiar um único DJ tocando o dia todo. Isso é algo único. E o sucesso não tem nada a ver comigo; tem a ver com o conceito em si e com como as pessoas o abraçaram como se fosse seu.
JF: Atualmente o Sunsetstrip possui edições em quais cidades?
HC: No momento, o Sunsetstrip tem edições em Buenos Aires, Mendoza, Punta del Este, São Paulo e Montreal. Cada cidade tem sua própria personalidade, mas o conceito se mantém fiel à sua identidade, e é isso que o torna especial. Mais novidades em 2026.

JF: O que podemos esperar para a edição de São Paulo? Todos estão muito curiosos sobre o formato e estilo, que sempre vai mudando de ano para ano, telões, drones, etc. Algo que poderia nos adiantar?
HC: Posso dizer que o Sunsetstrip tem uma identidade muito clara e, não importa onde a gente faça, as pessoas reconhecem isso imediatamente. Em São Paulo, o formato manterá a mesma essência: uma festa ao ar livre, do dia para a noite, onde a música evolui com a atmosfera. Então, musicalmente, você pode esperar que comece mais devagar e com mais intensidade, porque é dia e as pessoas estão chegando. Então, conforme as horas passam e o sol se põe, a intensidade aumenta até se tornar algo realmente poderoso à noite. Para mim, essa é a beleza de tocar esses sets longos – você consegue contar uma história com muita variedade e emoções, sem pressa.
JF: Você tem lançado muitas músicas em colaboração com diversos produtores nos últimos anos. É claro que você sempre fez música ao longo da carreira, porém agora produz em um volume muito maior, como tem sido para você também criar tendência do lado das produções?
HC: Sempre me considerei um DJ antes de tudo. Com o tempo percebi que poderia e deveria adicionar minhas próprias músicas aos meus sets. No começo fiz muitos edits e, com a evolução da tecnologia, ficou mais fácil e divertido me envolver na produção propriamente dita. Não sou músico, então sempre colaboro com amigos produtores em quem confio e admiro. Esse processo é algo que realmente gosto. Nos últimos anos, trabalhei muito com Mercurio, Soundexile, Kevin, Marcelo, César, Franky, Graziano e outros. Cada colaboração tem sua própria magia e é outra maneira de continuar impulsionando a cena, trazendo material e ideias inéditas para a mesa.
JF: Você também tem tocado muitas músicas de Brasileiros, sempre tem alguém novo aparecendo. Existe uma geração local aqui que está conseguindo criar faixas de excelente nível, como tem observado a evolução dos Brasileiros dentro do Progressive House?
HC: A cena brasileira cresceu muito! Honestamente, não há um único set meu que não inclua pelo menos um produtor brasileiro. Há um fluxo constante de novos talentos, e a qualidade é altíssima. Além dos artistas, todo o ecossistema vem evoluindo: novos DJs, produtores, novas agências, eventos, revistas… tudo isso tem um grande impacto na cultura. Considerando o tamanho e a população do Brasil, se vocês continuarem se esforçando, podem facilmente se tornar líderes mundiais nesse estilo.
JF: Há 10 anos, perguntei a você sobre o Yellow Club em Tóquio. Grandes DJs como você e Laurent Garnier tocaram no clube na última semana antes de fecharem as portas em 2008. Agora, por coincidência, você foi convidado para tocar em uma das últimas festas do lendário Warung Beach Club. Parece que “o tempo é um círculo plano”, como disse Rust Cohle na série True Detective. O que você poderia dizer sobre isso?
HC: Não dá para discutir com Rust Cohle, né? Hahahaha Foi um grande privilégio e uma honra tocar no encerramento do Yellow Tokyo, um dos melhores clubes da história da dance music e onde meu profundo amor pelo Japão começou em 2001. Agora é uma sensação agridoce estar na mesma situação com o Warung — mais um dos melhores de todos os tempos e o clube em que toquei todos os anos por mais tempo do que em qualquer outro na minha vida. É triste ver o Warung fechando, mas como Rust disse: “tudo o que fizemos, faremos de novo”. Espero que seja verdade para que possamos reviver todos esses momentos incríveis :)
JF: Para finalizar, serão quantas horas de show em São Paulo?
HC: Como todos os Sunsetstrips, a edição de São Paulo será um evento de dia para noite. Começaremos por volta das 15h e iremos até a 1h. Isso dá bastante tempo para as pessoas aproveitarem totalmente a jornada, desde os sons profundos da tarde até o auge da energia à noite. Estarei acompanhado de Blancah e Brvnov, então teremos ótima música o dia todo.
Por Jonas Facchi
