E-music pelo mundo: entre conflitos políticos e batalhas de dança, a cena Venezuela resiste ainda hoje

Em meio a uma nação marcada por contrastes sociais e culturais profundos, a música eletrônica na Venezuela emergiu como uma força transformadora ao florescer nos guetos urbanos dos anos 1990. Essa trajetória, frequentemente ignorada pela elite cultural, reflete as divisões de classe e raça do país, em que transformou marginalidade em inovação sonora. 

De pioneiros como Alfredo del Mónaco a fenômenos underground como o changa tuki, a cena eletrônica venezuelana cresceu, apesar dos desafios impostos por violência, crises econômicas e emigração massiva.

As raízes da música eletrônica na Venezuela remontam ao final da década de 1960, quando artistas começaram a explorar equipamentos emergentes como sintetizadores Moog.

A cena explodiu nos anos 1990 nos barrios pobres de Caracas, influenciada por tendências globais como house e eurodance, transmitidas via rádio FM. Os barrios são assentamentos ilegais urbanos ou comunidades populares, que podem ser equiparados às comunidades e favelas brasileiras. 

Surgiu o changa tuki, caracterizado por batidas cruas, energéticas e caribenhas, com BPMs altos. Originado em festas underground nos morros, era uma subcultura de jovens periféricos em condições precárias, envolvendo música, dança competitiva entre jovens de diferentes barrios e estética visual marcante, como cabelos tingidos e roupas coloridas. As minitecas, sistemas de som móveis com DJs, luzes e alto-falantes potentes, foram cruciais, levando a experiência de discoteca para ruas. 

Clubes fixos eram raros, mas se tornaram hotspots para noites de dança. As matinês  atraíam milhares nos barrios. No entanto, a cena enfrentou pânico moral devido à violência associada, levando a leis que restringiam eventos para menores.

Nos anos 2000, o changa tuki ganha força, com nomes como DJ Baba e DJ Yirvin sendo fundamentais para o movimento. A motivação era criar um som próprio e de identificação com o povo de sua área. A distribuição era informal, via CDs queimados e vendedores de rua. Sob o governo Chávez, a polarização política, racismo e classismo estigmatizaram a subcultura, rotulando-a como “tuki” – termo pejorativo para jovens de barrio. Após reformas na Lei Orgânica de Proteção à Criança e ao Adolescente (LOPNA) e a violência crescente nos barrios causaram um declínio abrupto: festas foram proibidas, e o movimento quase desapareceu localmente.

Durante o período de Nicolás Maduro no poder (2013-2026), a relação com a cena de música eletrônica foi caracterizada por indiferença institucional e impactos indiretos devastadores da crise econômica e política, que aceleraram o declínio da atividade local sem qualquer política de fomento ou apoio oficial. A hiperinflação, os cortes de energia frequentes, a escassez de infraestrutura e a emigração massiva de milhões de venezuelanos fragmentaram comunidades, fecharam venues e forçaram muitos produtores e DJs a migrarem para outros centros. A eletrônica underground, já estigmatizada por associações com marginalidade, violência passada e cultura queer, continuou sendo ignorada ou vista com desconfiança, sem receber subsídios, espaços ou promoção.

Hoje, em 2026, a cena local permanece fragmentada pela instabilidade: clubes fixos são escassos, com nightlife focada em reggaetón comercial, que ocasionalmente hospedam noites eletrônicas. Eventos esporádicos, como o Boiler Room Caracas em 2024, com Arca, DJ Babatr e MPeach, destacam a resiliência e fortalecem a cultura da música eletrônica venezuelana. No entanto, o conservadorismo cultural e o estigma persistem

Essa história ilustra a capacidade da música eletrônica venezuelana de transformar adversidades culturais e políticas em inovação, sempre resistindo e levando os princípios da música eletrônica adiante.

Por redação

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