Onde a guerra não alcança: o techno e a pista de dança como refúgio no caos que é viver no Líbano

Em um país marcado por décadas de conflitos, o Líbano transformou o som pulsante do techno em um dos mais poderosos atos de resistência cultural do Oriente Médio. Enquanto guerras civis, invasões e crises econômicas destroçaram Beirute, a cena eletrônica nasceu no meio do fogo cruzado e se tornou uma das principais do outro lado do globo.

O Líbano é um país marcado por uma história de conflitos que moldaram profundamente sua sociedade complexa e multiétnica. A Guerra Civil Libanesa (1975-1990) durou 15 anos e deixou cerca de 150 mil mortos, além de destruição generalizada, com milícias religiosas em confronto, agravado por intervenções externas. Israel invadiu o Líbano em 1982 durante a guerra, sitiando Beirute e ocupando o sul do país até 2000, o que contribuiu para o surgimento do Hezbollah como força de resistência xiita. 

Após o fim da guerra civil, o país permaneceu instável, como segue até hoje: presença de tropas sírias até 2005, conflitos armados recorrentes, corrupção endêmica, divisões sectárias e crises econômicas crônicas. 

Nesse cenário, a cultura do techno emergiu como um espaço de resistência. 

A cena eletrônica de Beirute tem raízes profundas na resiliência pós-guerra civil. O clube B018, criado por Naji Gebran nos anos 1980, durante o conflito, foi um marco para o desenvolvimento. Eram nas noites de techno que as pessoas deixavam de lado as diferenças sociais e se desligavam das cenas de terror que viam durante o dia.

A partir dos anos 1990, a dance music explodiu como parte da retomada noturna de Beirute. Embora influenciada por sons eurocêntricos, artistas locais incorporaram elementos árabes, ruídos ambientais e experimentação. A cena cresceu rapidamente pós-guerra, quando o país foi reconstruído do zero sem infraestrutura cultural prévia.

Em um país dividido por seitas, corrupção e crises constantes, a pista de dança funciona como sua própria espécie de democracia. É um espaço neutro de tolerância, liberdade de expressão e escape: protestar o dia todo, festejar a noite toda. Durante as manifestações de 2019 contra impostos, raves e festas viraram ato político coletivo, com latas de lixo virando tambores e DJs se apresentando durante os protestos. 

Para a juventude, é terapia, liberação de ansiedade e afirmação de vida. As pessoas amam festejar mesmo em meio ao caos. Clubes abrigam desde elitistas até underground, promovendo colaboração e inovação apesar da censura e do conservadorismo.

A cena nasceu da guerra e se alimenta dela. B018, construído sobre um terreno de horrores bélicos, simboliza a transformação de trauma em celebração. Em meio ao sectarismo, é espaço de unidade; durante invasões e crises, festas e clubes mantiveram a pulsação cultural. A música eletrônica virou forma de resistência sutil reivindicando espaços abandonados, criticando o sistema via improvisação e comunidade, e afirmando o direito ao prazer para um povo tão sofrido.

Os ataques israelenses intensos de 2024-2026 trouxeram destruição, deslocamento massivo e interrupções, mas a cena noturna demonstrou resiliência como de costume. Clubes no norte e áreas centrais continuam lotados mesmo com strikes a poucos quilômetros.

Alguns clubes viraram abrigos temporários para deslocados, eventos foram cancelados e a economia noturna sofreu com medo e escassez. O cessar-fogo de meados de abril de 2026 permitiu uma retomada gradual, embora o trauma recente reforce o papel da boate como refúgio psicológico.

A cena techno do Líbano é, acima de tudo, um ato de sobrevivência cultural nascido nas cinzas da guerra civil e fortalecido por cada crise subsequente. Em todas suas fases e dificuldades, ela encarna o espírito libanês de viver a vida plenamente apesar de tudo. Em um país com muitas questões políticas e sociais a serem resolvidas, a pista de dança oferece unidade, liberdade e esperança. 

Enquanto o Líbano reconstrói após o cessar-fogo de 2026, o techno continua a provar que, no meio do caos, a música cura, une, resiste e projeta um futuro possível.

Por Adriano Canestri

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