Poucos eventos na cena eletrônica brasileira conseguiram, ao longo do tempo, manter a alma tão intacta quanto o Sábado Dre Tarde. Criado por Dre Guazzelli, o projeto completa 10 anos de história e chega agora à 50ª edição no dia 16 de agosto, no Clube Esperia; uma jornada que começou com amigos reunidos no quintal de uma casa e evoluiu para reunir milhares de pessoas em celebrações memoráveis, sempre ao pôr do sol.
Muito mais do que um evento, o SDT se consolidou como um espaço de acolhimento, reencontro e transformação. Uma pista de dança onde vínculos são criados, histórias são celebradas e a música é o elo invisível entre quem toca e quem sente. Nesta conversa exclusiva com a House Mag, Dre abre o coração e compartilha o que o projeto ensinou a ele como artista e como ser humano, e por que ele acredita que a essência do Sábado Dre Tarde nunca esteve tão viva.
Quando você olha para trás e relembra a primeira edição do Sábado Dre Tarde, o que mais te emociona ao ver tudo o que ele se tornou?
Quando olho pra trás e lembro da primeira edição do Dre Tarde, no quintal da casa de um amigo, tudo o que eu queria era reunir os amigos, tocar por horas e ver o pôr do sol junto com todo mundo. Em 2015, isso ainda era novidade, não era comum como é hoje (festas ao pôr do sol). Acho que umas 300 pessoas foram naquela primeira edição. Ver que hoje são cerca de 3 mil pessoas por edição, que já são 50 encontros… o que mais me emociona é perceber a relação humana que a gente construiu. A festa virou quase uma missa: um lugar onde as pessoas voltam, onde a gente se reencontra, onde nascem boas histórias e memórias que ficam.
Em 10 anos de projeto, o que o SDT te ensinou como artista e também como ser humano?
Em 10 anos de Dre Tarde, eu aprendi, como ser humano, a me manter acessível, algo que sempre fui, mas que precisei cultivar. Aprendi também a seguir sendo humilde. É um exercício constante, como cuidar de um jardim: não basta regar uma vez, tem que cuidar sempre.
Já no lado profissional, aprendi a ter mais coragem, mais técnica, mas, acima de tudo, a confiar na minha intuição. Entendi que a verdadeira arte está em fazer diferente a cada vez, com amor, e não em repetir o que já deu certo. Repetir vira produção em série, e isso não tem nada a ver com a arte. Emoção de verdade vem da entrega, da conexão, e isso não se replica.
Você acredita que o SDT ajudou a moldar uma nova forma de viver a música eletrônica no Brasil? Em que sentido?
Com certeza. Me arrepio só de pensar nisso. O Dre Tarde despertou uma nova consciência, sobre o tempo, o acolhimento, o pertencimento. Mostrou que festas podem, sim, acontecer à luz do dia, unir gerações diferentes e criar espaços onde você perde algo e encontra depois. Onde chega sozinho e volta com novos amigos. Onde o sorriso é o convite, não importa a idade, o estilo ou a roupa. No fim, é mais do que música, é sobre sair dali uma versão melhor de quem você era quando chegou.
O que manteve o projeto fiel à sua essência mesmo com as mudanças de público e mercado?
Eu acho que, nesses 10 anos, o mercado mudou bastante. A música eletrônica vai mudando, vai evoluindo, e quem consome também. Tem gente que vai ficando mais velha, gente que casa, que muda… Mas eu vi, eu vivo e continuo vendo que é possível manter a essência. Porque essa essência tá aqui dentro, principalmente no coração.
É a essência de ir a um lugar e se sentir bem. De acompanhar as mudanças nos estilos, fazer uma viagem sonora, experimentar novas ideias, trazer pitadas de sons mais conceituais… mas sem esquecer daqueles momentos que o público espera. Aqueles pontos de mais fácil digestão, que ajudam a “catequizar” quem talvez nem gostava tanto de música eletrônica e sai de lá apaixonado.
Esse processo é mágico. Eu vi isso acontecer ao longo desses 10 anos, e é isso que quero continuar fazendo pro resto da minha vida.
Há alguma história que te marcou profundamente e que talvez o público nem saiba?
Ao longo dessas 49 edições, eu presenciei muitas histórias que talvez ninguém veja, mas eu vi. E muitas delas são incríveis porque vão além da música: envolvem amor, conexão humana de verdade.
Eu vi amizades nascerem, claro. Mas mais do que isso, vi casais se formando, pedidos de namoro, depois noivados… e até casamentos. Casamentos em que eu mesmo toquei e fiz parte daquele dia tão especial pra eles. E isso não aconteceu uma ou duas vezes, foram mais de quinze ao longo desses 10 anos.
Por isso, em vez de falar de algum problema que a gente resolveu, eu prefiro falar dessas histórias. Porque é por isso que eu vivo. É isso que me move.
Como é saber que o SDT foi cenário de tantas transformações pessoais de quem frequenta?
Ao longo desses 10 anos, eu fui me transformando, assim como todo mundo se transforma a cada dia. Sou muito grato a todas as pessoas que frequentam o Dre Tarde. Muitas delas, de certa forma, já são meus amigos, porque a gente se encontra em vários momentos fora da festa. Alguns eu vou jantar na casa, outros encontro em outras festas…
Ver minha vida sendo transformada junto com a vida dessas pessoas, ouvir relatos, às vezes até de gente que eu nem conheço e que veio pela primeira vez e acabou se reencontrando ali, é algo muito forte para mim.
Acho que parte do meu objetivo, e da minha cura pessoal, é esse sentimento de estar em casa, de dentro pra fora. E fazer as pessoas se sentirem assim também é um dos meus maiores propósitos.
É emocionante pensar que uma festa pode transformar alguém, tirar uma pessoa de uma possível depressão, unir almas… e que a música abraça tudo isso.
A 50ª edição é um marco. E agora? Existe um novo sonho para o SDT?
A gente chega no dia 16 de agosto para a 50ª edição, e sinto que uma nova fase já começou, porque a transformação nunca acontece do nada, ela vem em degradê, aos poucos.
O Dre Tarde é um sonho que quero continuar realizando, justamente por ser esse espaço de reencontro, esse ambiente propício onde eu posso tocar sem peso, com liberdade. É como brincar em um playground cheio de amigos.
É essa sensação que me faz não perceber as cinco horas passando quando estou tocando, eu poderia inclusive tocar muito mais.
E pensar que, daqui pra frente, tantas pessoas vão vibrar junto comigo com minhas conquistas, como tocar no Tomorrowland, conquistar outras pistas em festivais, e levar o Dre Tarde para outras cidades, é algo que me enche de energia e vontade de seguir em frente.
O que o público pode esperar da 50ª edição?
A gente sempre fala sobre o que esperar de algo que está por vir, como uma edição muito especial. Mas ela é especial justamente por tudo que já foi vivido até aqui.
Aprendi recentemente a não criar tanta expectativa, mesmo sabendo que vai ser incrível, porque eu tenho certeza disso. E isso acontece principalmente por causa das pessoas que frequentam, que fazem daquele momento algo único, estando presentes de verdade, assim como eu me esforço para estar 100% presente durante minha tocada.
O que se pode esperar? Que vai ser maravilhoso, porque vamos nos reencontrar. Tem gente que vai pela primeira vez, outras que vão pela segunda, e tem quem frequenta há anos.
Mais do que qualquer coisa visual, o que importa é que estamos celebrando, de dentro pra fora, 50 edições.
Por redação
