No final dos anos 80 e início dos anos 90, o Brasil ainda era mato quando se tratava de house e techno, porém já há alguns bons anos, seu público já dançava ao ritmo da disco music nas discotecas periféricas das grandes cidades da época, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro.
Os discos chegavam aos DJs da época pelos empresários donos das casas de show ou lojas de discos que viajavam para comprar novos materiais, principalmente nos Estados Unidos. Assim, casas como Hippopotamus, Papagaio Disco Club, Chic Show e Toco foram espaços primordiais para o início da cultura da música eletrônica no Brasil. Nos anos 90, o house e o techno passaram a ficar mais populares nas boates e aos poucos pioneiros como DJ Mau Mau, Patife, Marky, Renato Cohen, DJ Meme, Anderson Noise e Renato Ratier começam a se destacar nos clubes.
É importante lembrar que os movimentos inicialmente frequentados quase somente pelos moradores das periferias foi disseminando aos poucos para outras camadas da sociedade. As novas casas com estruturas melhores de som, iluminação e com as melhores músicas trazidas do exterior tinham como público pessoas com maior poder aquisitivo, movimento que acabou afastando os primeiros clubbers da vida noturna por um tempo.
Nesse cenário, surgiram os primeiros clubes dedicados totalmente à música eletrônica e DJs, como o D-EDGE, Lov.e, Warung, junto com as primeiras raves dos anos 2000 como Skol Beats, Tribe, Universo Paralello e XXXperience que arrastavam milhares de pessoas. Apesar de chegar em um país com uma cultura musical muito forte e gêneros muito bem definidos pelas regiões, a dance music já era relevante no Brasil há 20 e poucos anos, mesmo com resistência, desinformação e preconceito das autoridades e da população.
Fruto disso, começaram a vir pelas primeiras vezes grandes DJs para o Brasil que já eram estrelas internacionais. Uma parte importante a se observar é que os DJs brasileiros demoraram a ganhar reconhecimento pelo público daqui, que valorizava muito mais a presença de headliners internacionais. Fato que mostra um viralatismo histórico do brasileiro, enquanto Eli Iwasa, Gui Boratto, ANNA, Joyce Muniz, Victor Ruiz entre outros já se mostravam artistas de primeira linha. Alguns DJs e produtores decidiram morar fora do país nessa época pela pouca oportunidade do mercado interno e também por entender que sua linha de som não combinava com o que era consumido aqui – naquela época era bem menos diverso do que é hoje.
Os anos 2010 mostraram um crescimento grande com o Warung Day e Só Track Boa, hoje dois dos principais festivais, e DJs como Vintage Culture, Alok, Felguk, Illusionize, Cat Dealers, Chemical Surf, Gabe entre outros estourando no país todo. Essa nova geração fomentou toda uma nova geração de apaixonados pela música eletrônica e ainda hoje fazem isso. Cada um da sua forma e com sua base, mas captando novos integrantes para a nave.
A energia da pista brasileira, os eventos em locais lindos como nosso litoral e nossa cultura nos tornou um dos destinos favoritos de muitos nomes globais, o que sempre deixou nossa cena aquecida e relevante principalmente fora da temporada de verão europeia. Por isso, grandes marcas como Ultra e Tomorrowland viram o potencial de nosso mercado e trouxeram seus eventos para cá.
Um momento de instabilidade e insegurança assolou a música eletrônica durante a pandemia, com muitas pessoas que trabalham nesse mercado como produtores de eventos, donos de clubes e os próprios artistas ficando sem renda. Mas, após este período vimos o Brasil se estabelecer de vez entre os principais pólos da música eletrônica no mundo. DJs com ascensões meteóricas e artistas já consolidados estão levando nossa bandeira para o mundo inteiro e fazendo collabs com nomes que chegam a furar a bolha.
Hoje, somos a base da Tomorrowland nas Américas, temos a segunda maior Time Warp do mundo, clubes posicionados no Top 10 da DJ Mag entre os melhores do mundo (Greenvalley e Laroc) e uma geração de produtores que é referência.
Certamente, o futuro próximo reserva coisas boas para os fãs de música eletrônica.
Por Adriano Canestri
