A Bélgica, um pequeno país no coração da Europa, pode não evocar imediatamente imagens de batidas pulsantes e multidões eufóricas, mas sua contribuição para a música eletrônica é monumental. Desde a chegada do house e do techno no final dos anos 1980, a cena belga evoluiu de um underground experimental para um fenômeno global, moldado por contextos históricos turbulentos, uma cultura local de rebeldia juvenil e DJs visionários.
A história da música eletrônica belga remonta ao final dos anos 1980, quando o house e o techno cruzaram o Atlântico, encontrando solo fértil em uma nação dividida linguísticamente e economicamente abalada pela recessão pós-industrial. Antes mesmo da importação americana, a Bélgica já fermentava seu próprio som: o “new beat”, um gênero lento e hipnótico que misturava EBM (Electronic Body Music) com influências pós-punk, surgiu em clubes como o Boccaccio, que se tornou o berço do house posteriormente.
Essa cena underground floresceu em um contexto histórico de transição: a Bélgica dos anos 1980 lidava com instabilidade econômica enquanto via o surgimento de uma juventude urbana ávida por escape.
No final dos anos 80, o house e o techno se instalaram de vez. Clubes como o Fuse e o Palace, tornaram-se mecas para os jovens que cada vez mais se apaixonaram pela música eletrônica. O new beat evoluiu para o hardcore techno belga no início dos anos 1990, caracterizado por BPM acelerados e sons agressivos, influenciando outras cenas europeias.
A rave culture belga emergiu como um movimento de juventude contra a rigidez social dos anos 1980, em um país marcado por divisões étnicas e econômicas. Inspirada nas origens americanas, mas adaptada ao contexto europeu, a cena belga priorizava a inclusão: festas ilegais em galpões abandonados de Bruxelas e Antuérpia reuniam flamengos, valões e expatriados, onde a música eletrônica servia como linguagem universal. O documentário The Sound of Belgium, de 2012, captura essa essência, retratando raves como atos de resistência cultural.
As raves atraíram milhares apesar da repressão policial – um eco das tensões sociais da época. No entanto, a Bélgica subestimou seu papel pioneiro: enquanto o Reino Unido e a Alemanha são creditados pela acid house e pelo techno industrial, os belgas foram responsáveis pelo hardcore. Essa cultura local, marcada por uma mistura de hedonismo e melancolia, produziu uma identidade sonora única: introspectiva, mas explosiva, que influenciou o muito da sonoridade moderna como o hard techno.
Na era contemporânea, Charlotte de Witte e Amelie Lens personificam o renascimento do techno belga. De Witte emergiu nos anos 2010 tornando-se uma das DJs mais influentes do mundo. Lens elevou o “Belgian techno” a um patamar feroz, com BPMs implacáveis que capturam a intensidade da rave original. No EDM, Dimitri Vegas & Like Mike, enquanto Lost Frequencies trouxe seu house tropical para as paradas. Esses DJs não só exportaram o som belga, mas o infundiram com a resiliência cultural de um país pequeno que sonha grande.
Hoje, a cena belga está lotada de grandes festivais de música eletrônica. O XRDS, que é organizado pela equipe do clube Fuse, o Voodoo Village, realizado no meio de uma floresta, Paradise City que cresce a cada ano, Dour Festival criado em 1989 e cinco dias de rave, WECANDANCE com uma vibe de praia e muitos outros. Os clubes, onde tudo começou, também permanecem vivos com o lendário Fuse, o Versuz recentemente fechado que operou por 23 anos, Ampere, Funke e Club Vaag, para citar alguns importantes que mantém a cultura clubber acesa.
Entre todos estes grandes eventos, a eletrônica belga tem um embaixador global, que é o Tomorrowland. Não apenas um festival, mas um império que transformou Boom, uma vila modesta a 20 km de Antuérpia, em sinônimo de magia eletrônica. Fundado em 2005, o evento começou como uma modesta celebração de um dia, atraindo 9.000 visitantes. Inspirados pelas raves dos anos 1990 e pela eficiência logística belga, eles criaram um “reino de conto de fadas” com cenários temáticos, onde o house e o techno se completavam com narrativas fantásticas.
O crescimento foi meteórico. Em 2007, expandiu para dois dias; em 2008, recebeu 50.000 visitantes; em 2010, esse número subiu para 180.000 nos dois dias; e em 2014, adotou o formato de dois fins de semana, e visitantes anuais de mais de 200 países. Neste ano, recebeu mais de 400.000 pessoas do mundo inteiro.
O impacto é inegável. O festival não só revitalizou a economia de Boom – gerando milhões de euros milhões anuais – mas elevou o techno, house e DJs belgas ao mainstream, inspirando edições nos Estados Unidos e no Brasil, hoje sua base nas Américas.
Na semana que vem, entre os dias 9 e 12, o Tomorrowland carrega não só sua magia, mas toda a história da música eletrônica belga, para o Brasil novamente em mais uma edição no Parque Maeda de Itu.
Por Adriano Canestri
