E-music pelo mundo: as raves ilegais e uma lei autoritária moldaram a cena clubber do Reino Unido

O Reino Unido foi a segunda casa da dance music no mundo. A história do movimento no Reino Unido é rica e profundamente entrelaçada com o contexto social, político e cultural do país, evoluindo do submundo underground para um fenômeno global.

A música eletrônica, particularmente house e techno, chea ao Reino Unido no final dos anos 1980, em um período de turbulência social e política. Sob o governo conservador de Margaret Thatcher, o país enfrentava um período de tensões e incertezas sociais. A juventude, desiludida com as perspectivas econômicas e políticas, encontrou na música eletrônica uma forma de escapismo, rebelião e expressão cultural.

House, originado em Chicago, e techno, de Detroit, começaram a ser importados por meio de clubes underground e DJs que traziam vinis dos Estados Unidos. Londres, Manchester e outras cidades industriais, como Birmingham, tornaram-se centros para essa nova cena. Clubes como o Haçienda em Manchester e o Shoom em Londres foram fundamentais para a disseminação do house. A “Second Summer of Love” (o segundo verão do amor) marcou o auge inicial, com raves ilegais e eventos movidos a ecstasy, que amplificaram a popularidade desses gêneros. Esses eventos eram espaços de comunhão social, onde raça, classe e gênero se misturavam, desafiando as divisões sociais da época.

A ascensão da música eletrônica, especialmente durante a era das raves, enfrentou forte resistência. O governo conservador via as raves como um problema social, associando-as ao uso de ecstasy e à desordem pública. A mídia sensacionalista amplificava esses temores, com manchetes alarmistas sobre “cultura de drogas”. Em 1994, o governo aprovou o Criminal Justice and Public Order Act, que dava à polícia poderes para encerrar eventos com “música repetitiva” e grandes aglomerações, visando diretamente as raves ilegais. Essa legislação foi vista como uma tentativa de reprimir a contracultura jovem, mas acabou empurrando a cena para clubes legalizados e festivais regulamentados.

A resistência da população variava. Enquanto a juventude abraçava a música eletrônica, setores mais conservadores da sociedade, especialmente em áreas rurais, viam as raves como ameaças à ordem. No entanto, a integração gradual da música eletrônica na cultura mainstream, com hits nas paradas e cobertura positiva em revistas como Mixmag e DJ Mag, ajudou a reduzir o estigma ao longo dos anos 1990.

Fatboy Slim, Carl Cox, Pete Tong, Paul Oakenfold, John Digweed e New Order são alguns nomes que levaram a música eletrônica inglesa para o mundo com muita inovação para a época e sendo alguns dos primeiros DJs do mundo a realizar turnês internacionais. Estes pioneiros foram responsáveis por apresentar ao mundo a profissão DJ e mudar toda a rota dali em diante, tornando-o figura central de grandes festivais. Hoje, nomes como Michael Bibi e Pawsa mantém este legado.

Na década de 90, os brasileiros DJ Marky, Patife, XRS, DJ Andy e outros levaram o drum n bass ao UK fazendo muito sucesso. Essa geração ficou marcada como os primeiros DJs nacionais que fizeram história fora do país.

Hoje, a música eletrônica no Reino Unido é uma indústria consolidada, mas mantém raízes underground. Londres continua sendo o epicentro, com clubes como Fabric e Ministry of Sound atraindo talentos globais. Manchester, Bristol e Glasgow também têm cenas vibrantes, com ênfase em subgêneros como techno, drum and bass e UK garage. Os festivais Creamfields, Glastonbury, South West Four, One Life e outros seguem atraindo milhares de fãs.

O contexto político atual, com debates sobre Brexit e crise econômica, reflete-se em uma cena que equilibra escapismo com comentário social. O grime, por exemplo, continua a abordar questões de classe e raça, enquanto o techno underground mantém um espírito de resistência. 

A música eletrônica no Reino Unido evoluiu de uma subcultura marginalizada pelo governo e imprensa para um pilar da identidade cultural britânica, influenciando a moda, a arte e a política. Apesar da resistência inicial, ela conquistou legitimidade, impulsionada por DJs lendários, festivais históricos e uma capacidade contínua de se reinventar. 

Por Adriano Canestri

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