E-music pelo mundo: como a Austrália usou do isolamento geográfico para criar autenticidade em sua cena

A música eletrônica na Austrália emergiu como uma força inovadora, moldada pelo isolamento geográfico do país, que o distancia dos centros musicais globais como Europa e EUA, fomentando uma cena autônoma e criativa. 

Com uma população relativamente pequena e vastas distâncias internas, os artistas australianos precisaram superar barreiras logísticas, impulsionando inovações como festas em regiões remotas para contornar regulamentações urbanas. Esse isolamento incentivou uma cultura local vibrante, influenciada pela herança indígena, pelo surf e pela vida ao ar livre, resultando em sons mais luminosos, etéreos e espaciais, evocando verões à beira-mar em vez de raves subterrâneas escuras.

A evolução começou no final dos anos 1970 e início dos 1980, com a introdução de sintetizadores no rock, abrindo caminho para os primeiros artistas eletrônicos. A chegada do house e techno nos anos 1980 veio via festas RAT (recreational art team), eventos gays e raves, transformando a cultura musical no país. 

Nos anos 1990, o auge das raves em áreas remotas deu lugar a uma crise em 1995, com regulamentações em Sydney fechando grandes eventos, mas isso floresceu em diversidade pós-rave, como IDM (intelligent dance music) e o “doof”, que são festas comunitárias ao ar livre em florestas.

O ponto de virada de 1995 foi marcado pela morte trágica de Anna Wood. A jovem consumiu uma pílula de ecstasy durante a rave “Apache”, no Phoenician Club, em 21 de outubro. Ela sofreu intoxicação aguda por água (hyponatremia), agravada pela droga, levando a um edema cerebral e coma; morreu três dias depois, em 24 de outubro. O caso gerou um intenso pânico moral na mídia e na sociedade, com foco em jovens “inocentes” expostos a drogas em festas mal reguladas. O premier de New South Wales, Bob Carr, endossou a pressão para fechar o Phoenician Club, que sofreu multas pesadas (incluindo $100.000), suspensão de licenças e proibição de eventos de dança.

O governo estadual intensificou a fiscalização de locais e eventos de dança, com repressão policial e regulamentações mais rígidas. Em 1997, foi implementado o NSW Code of Practice for Dance Parties, que tornou obrigatórios chill rooms (salas de descanso com ar-condicionado), fornecimento gratuito de água potável e medidas para reduzir riscos de desidratação ou hiper-hidratação em festas com uso de ecstasy. 

Essa crise marcou o “fim” das mega-raves urbanas comerciais em Sydney, forçando a cena a se diversificar: produtores migraram para festas menores, doofs em áreas remotas (como florestas). Dessa forma, o underground se fortaleceu com foco em comunidades locais e menos visibilidade midiática. Paradoxalmente, ajudou a cena eletrônica australiana a se tornar mais resiliente e criativa, longe das grandes regulamentações urbanas.

A cena evoluiu para subgêneros únicos, como o electropop australiano e house. Nos anos 2010, Flume popularizou o “som australiano”, misturando eletrônica, future bass e house, pavimentando o caminho para o sucesso global. 

RÜFÜS DU SOL, formado em 2010 e com álbum de estreia em 2013, elevou o gênero com melodias contemplativas e vocais soulful, se tornou um dos projetos mais especiais dos últimos 10 anos e representa uma fusão de rock e eletrônica muito subjetiva. Fisher, que emergiu da cena de surf da Gold Coast, ganhou destaque internacional via Coachella e festivais. Outros grandes nomes como Dom Dolla e Alison Wonderfland seguem levando as raízes e bandeira australiana por clubes e festivais ao redor do globo.

Da sua geografia única, estilo de vida da sociedade voltado para valorização e conexão com a natureza e dificuldades pela repressão do estado e mídia, a cena australiana se moldou até ser uma exportadora de talentos para todo o mundo nos dias de hoje.  

Por redação

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