E-music pelo mundo: Na contramão de outras cenas, o liberalismo de Amsterdam abraçou a dance music logo no início

Amsterdã, a cidade dos canais e da liberdade, não é apenas um ícone de tolerância cultural, ela também pulsa com o coração da música eletrônica. Embora as raízes da experimentação sonora remontem aos anos 1950, com pioneiros como Dick Raaijmakers explorando sons eletrônicos em laboratórios, foi nas décadas de 1980 e 1990 que a cena dance explodiu, transformando a capital holandesa em um hub global de raves underground. Influenciada pelo house de Chicago e pelo techno de Detroit, a música eletrônica em Amsterdã ganhou vida em meio a um contexto de liberalismo político, com políticas de tolerância às drogas e um forte movimento de squats – ocupações de edifícios abandonados que serviam como palcos improvisados para festas clandestinas. Essa era marcou não só uma revolução sonora, mas também uma forma de resistência juvenil contra o conservadorismo, ecoando o espírito contracultural da época.

Nos anos 1980, a cena começou a fervilhar com a chegada do house music, importado dos Estados Unidos e adaptado ao gosto local. Um marco foi a abertura do clube RoXY em 1987, que introduziu o acid house e o house clássico para um público sedento por novidades. Localizado no centro da cidade, o RoXY não era apenas um clube; era um experimento em liberdade, com decorações teatrais e uma atmosfera que misturava arte, moda e música. Operando até 1999, quando um incêndio o destruiu, o RoXY hospedou noites lendárias que ajudaram a moldar a identidade da dance music holandesa, inspirando uma geração de DJs e produtores. Paralelamente, o gabber – um subgênero hardcore acelerado, influenciado pelo techno alemão – emergiu como o som da juventude rebelde, com festas em armazéns abandonados que desafiavam as normas sociais. Essa fase underground, alimentada pela “gedoogbeleid” (política de tolerância a drogas como ecstasy), transformou Amsterdã em um paraíso para ravers, contrastando com a “Disco Sucks” movement que rejeitava gêneros semelhantes em outros lugares.

A década de 1990 elevou a cena a outro patamar, com a diversificação de subgêneros e a exportação global da música holandesa. Foi nesse período que o trance ganhou proeminência, um estilo uplifting e melódico que capturou o imaginário coletivo. Originário da Alemanha no final dos anos 1980, o trance encontrou solo fértil na Holanda, onde DJs locais o refinaram em um som acessível e comercial. Figuras como Armin van Buuren e Ferry Corsten contribuíram para essa evolução, mas ninguém personificou o movimento como Tiësto. Nascido Tijs Michiel Verwest em 1969, Tiësto começou sua carreira aos 12 anos, discotecando em festas escolares, e nos anos 1990 emergiu como uma força imparável. Em 1998, ele formou o duo Gouryella com Ferry Corsten. Seus sets espetaculares levaram o gênero a arenas lotadas, culminando em performances históricas como a de abertura das Olimpíadas de Atenas em 2004 – o primeiro DJ a se apresentar em um evento olímpico.

A importância de Tiësto para a Holanda transcende a música: ele é um embaixador cultural que ajudou a posicionar o país como um dos líderes mundiais em dance music. Nos anos 1990 e 2000, ao lado de Armin van Buuren – criador do icônico rádio show “A State of Trance” – e Ferry Corsten, Tiësto impulsionou a “Dutch trance scene”, gerando bilhões em receitas para a indústria musical holandesa e fomentando eventos como o Amsterdam Dance Event (ADE), fundado em 1996. Sua transição de trance para EDM mais amplo, elevou a visibilidade global da Holanda, inspirando uma nova geração de produtores como Martin Garrix, Hardwell, Anotr, Oliven Heldens, Reinier Zonneveld entre outros.

Não há como falar da cena de Amsterdam sem passar pelo ADE (Amsterdam Dance Event). Desde 1996, o evento é a maior conferência do mundo hoje de música eletrônica, atraindo mais de 500.000 visitantes, 1000+ eventos, 2500 artistas e 100 locais em 2024. Entre eventos, festivais, palestras, negócios, reuniões, workshops, conexão e networking, o ADE é um período chave no calendário anual de música eletrônica. Lá, muitas ideias e parcerias surgem, debates sobre o panorama atual do mercado e as projeções para o futuro são constantes. Durante uma semana, Amsterdam, que já é uma das cidades mais movimentadas do mundo, se torna o epicentro global da dance music sem interrupções. Este ano, o evento acontece entre os dias 22 e 26 de outubro.

Veja a programação completa do ADE no site oficial.

Por Adriano Canestri

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