Entenda como pessoas com TDAH podem ter a música como aliada ou dificultadora para tocar o dia a dia

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é uma condição neurobiológica caracterizada por dificuldades persistentes em manter a atenção, comportamentos impulsivos e/ou hiperatividade. Afeta cerca de 5-7% das crianças e 2-5% dos adultos globalmente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, estima-se que cerca de 2 milhões de pessoas convivam com o transtorno.

A Associação Brasileira do Déficit de Atenção afirma que, no dia a dia, o TDAH impacta significativamente a vida das pessoas. Crianças podem ter dificuldades acadêmicas, como problemas para seguir instruções ou completar tarefas e no relacionamento interpessoal. Adultos frequentemente enfrentam desafios em organização, gerenciamento de tempo e regulação emocional. A impulsividade pode levar a decisões precipitadas, enquanto a desatenção dificulta a manutenção de foco em tarefas rotineiras. Além disso, o TDAH está associado a taxas mais altas de ansiedade, depressão e baixa autoestima devido às dificuldades sociais e profissionais que podem surgir.

A música, em suas diversas formas, tem se mostrado uma ferramenta poderosa para pessoas com TDAH. Estudos neurocientíficos sugerem que a música ativa múltiplas áreas do cérebro, incluindo o córtex pré-frontal, que está relacionado à regulação da atenção e das emoções – áreas frequentemente afetadas no TDAH.

1. Melhoria do foco e concentração

A música, especialmente gêneros com batidas consistentes como música eletrônica pode atuar como um estímulo externo que ajuda a “ancorar” a atenção. A repetitividade rítmica de gêneros como o techno ou o drum and bass cria um padrão previsível que pode reduzir a sobrecarga sensorial, permitindo que pessoas com TDAH mantenham o foco por mais tempo. Um estudo publicado pela Faculdade de Medicina da UFMG mostrou que ao colocar crianças com TDAH para realizar a mesma atividade, aquelas que fizeram ouvindo música se engajaram e concentraram mais ao responder as perguntas, obtendo menos erros. O contrário aconteceu com os alunos que não ouviram música durante.

2. Regulação emocional

Thiago Rocioli, ao blog Musixe, aponta que a música tem um impacto direto no sistema límbico, que regula emoções. Para pessoas com TDAH, que muitas vezes lutam com regulação emocional, ouvir música pode ser uma forma de canalizar sentimentos intensos ou reduzir a ansiedade. Gêneros eletrônicos como o ambient, chillout, afro house ou organic house com suas texturas suaves podem criar um ambiente calmo e acolhedor, ajudando a reduzir a hiperatividade mental. 

3. Estímulo à dopamina

O TDAH está associado a níveis mais baixos de dopamina, um neurotransmissor ligado à motivação e ao prazer. Ouvir música pode aumentar a liberação de dopamina. Isso pode ajudar pessoas com TDAH a se sentirem mais motivadas para realizar tarefas que, de outra forma, seriam monótonas

É possível a música atrapalhar?

Apesar dos benefícios, a música também pode ser um obstáculo para pessoas com TDAH em certas situações. O impacto depende do contexto, do gênero musical e da sensibilidade individual. Veja alguns apontamentos divulgados no site Heathline.

1. Sobrecarga sensorial

Pessoas com TDAH frequentemente têm hipersensibilidade sensorial. Gêneros eletrônicos intensos, como o hardstyle ou o dubstep, podem sobrecarregar o sistema nervoso, aumentando a ansiedade ou a distração. 

2. Distração 

Músicas com letras ou estruturas rítmicas muito complexas podem atrapalhar tarefas que exigem alta concentração, como leitura ou resolução de problemas. Para pessoas com TDAH, o cérebro pode tentar processar a letra da música ao mesmo tempo em que realiza a tarefa, levando a uma divisão de atenção. 

3. Dependência de estímulo externo

Embora a música possa ajudar na concentração, algumas pessoas com TDAH podem desenvolver uma dependência de estímulos sonoros para realizar tarefas. Isso pode ser problemático em situações onde a música não é viável, como em reuniões ou ambientes silenciosos, limitando, dessa forma, a pessoa a desempenhar da melhor forma.

A música, especialmente as mais calmas e que sejam de sua preferência, pode ser uma ferramenta valiosa para pessoas com TDAH, ajudando na regulação da atenção, emoções e motivação. No entanto, é crucial escolher o tipo certo de música e usá-la de forma estratégica para evitar distrações. Com a abordagem correta, a música pode transformar o caos interno do TDAH em momentos de fluxo, produtividade e bem-estar, oferecendo não apenas alívio, mas também uma forma de expressão e conexão com o mundo.

Por Adriano Canestri

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