MADRE PRODUTORA: a nova agência brasileira focada em ampliar horizontes dos artistas LGBT e transformar o underground

É algo sintomático de nossos tempos que “saturação” tenha se tornado um tema recorrente em muito do que debatemos sobre a música que amamos e a cena que vivemos, especialmente nos grandes centros urbanos em que elas vicejam. Entre declarações de haver “festas demais” e reclamações de que “todo mundo quer ser DJ” parece que não só recuperamos como superamos em muito qualquer vácuo ou carência que pudessem ter criados pela pandemia.

De qualquer modo, para além deste burburinho e de sua possível precisão em descrever a realidade, há um fato que é difícil de ignorar: houve uma expansão do cenário artístico independente brasileiro na música eletrônica nos últimos anos.

Ela se manifestou tanto quantitativa quanto qualitativamente pelas mais variadas frentes,  para alegria de muitos e tristeza de alguns poucos. O que temos atualmente é um panorama inegavelmente mais diverso, pois se tornou mais inclusivo e, por consequência, mais expressivo musical e comportamentalmente. Decorrência direta da abertura de espaços e mentes para sonoridades e corporalidades que não eram encontradas nas cabines e estúdios, ainda que tivessem lugar central na história da música que era curtida nas pistas. Os mesmos que agora começam também a preencher os devidos postos de trabalho nas engrenagens que fazem tudo se mover.

Um momento auspicioso para empreitadas como a liderada por Turmalina Nogueira, procurando através da representatividade incrementar um mercado bastante competitivo, mas que pode comportar ainda mais diversidade de sons, experiências, afetos e talentos. Aqui ela conta um pouco da trajetória que a trouxe até aqui e dos itinerários que pretende seguir no futuro com a MADRE.

House Mag: Quem é a pessoa por trás desse projeto? 

Turmalina Nogueira: Turmalina Nogueira, formada em Design Gráfico que atua desde 2012 com produção artística. Comecei minha jornada sendo produtora de exposições no Museu da Casa Brasileira, o mais importante museu de Arquitetura e Design do Brasil. No ano de 2018, criei a Perifacon, a primeira convenção nerd das favelas, projeto este que alcançou sucesso nacional e está na sua quinta edição. Desde 2020 trabalho com produção e logística de diversos artistas como BADSISTA, OMOLOKO, Ashira, Brisa Flow, EVEHIVE, Malka Julieta e muitos outros. Meus esforços passaram por alguns dos principais festivais do Brasil e do mundo, entre eles Primavera Sound, The Town, Rock in Rio, Popload Festival, Lollapalooza, Tomorrowland, Dekmantel, Gop Tun Festival e Time Warp. 

E em 2024 abri a minha própria agência, a MADRE PRODUTORA, com objetivo de transformar o mercado da música eletrônica underground, buscando alterar os padrões estabelecidos e inserir um olhar descentralizado e diverso para a cena musical. 

HM: E como a ideia nasceu e amadureceu até se tornar este projeto?

TN: Eu trabalhava na Pantera Cartel Agency com a Mariana Boaventura, que gerenciava a carreira do BADSISTA e esse período foi uma escola gigantesca pra mim. Em 2024 eu já começava a trabalhar com bookings para o EVEHIVE e ele me impulsionou muito a abrir a minha própria agência, me incentivou de todas as formas possíveis e me deu o gás necessário para criar a MADRE.

Unindo toda a bagagem de conhecimento adquirida nos trabalhos anteriores em bookings, produções e logísticas com a importância de se criar uma identidade visual coerente que amplifique o trabalho. 

HM: Qual a proposta que orientou a formação do roster?

TN: A ideia gira em torno de corpos e sons dissidentes. O norte da proposta é a inclusão então é a respeito da representatividade de pessoas LGBTQ+ mas também dos vários gêneros musicais que elas ajudaram a criar e consomem regularmente. Então é uma grande família artística que procura amparar a existência e a expressão de cada membro dela.

HM: Olhando de fora, parece ter rolado um progresso considerável no que diz respeito à representatividade das pessoas que ajudaram a construir esta cena em espaços privilegiados e de maior visibilidade. Mas, qual a perspectiva de dentro, de quem vem lutando por essas conquistas há tempos?

TN: Pessoalmente, o que vejo é um momento muito positivo da música eletrônica brasileira. O que significa que na prática a sua impressão se confirma. Tem bastante artista fazendo turnê internacional hoje em dia. Algo que começou com BADSISTA, Cashu e OMOLOKO e agora pode-se notar que temos uma gama muito mais ampla de nomes indo para a Europa, EUA e Ásia e esta tendência só aumenta

O que mudou foi um olhar mais generoso e uma escuta mais atenta à riqueza de nossa música e isso é tangível especialmente no período que se seguiu a pandemia. Tem novos movimentos surgindo em todas as partes desde o Rock Doido no Pará até a ressurgência do Tribal e passando pela aceitação crescente do funk como musicalidade eletrônica autêntica nossa.

HM: Entre desafios e oportunidades, quais são os principais que vêm adiante?

TN: Honestamente, acho que é difícil não notar que o mercado ainda é muito elitizado e acredito que a MADRE tem de trabalhar em dobro para furar bolhas. A missão dela é conquistar territórios e entrar em lugares até então inéditos para garantir a exposição de seus artistas, que é quem faz grande parte do trabalho, mas sou eu quem tem de dar as caras e falar com contratantes. É um esforço constante de ver e ser vista, circular em ambientes nos quais ainda existem barreiras que se manifestam na resistência a ouvir o que temos a dizer e tocar. Então é uma questão fazer as pessoas entenderem que há muitos benefícios no simples ato de abrir os olhos e os ouvidos.

A novidade está aí basta dar oportunidade, algo que ficou claro no sucesso do palco LuvLab no Só Track Boa A.li se viu um fluxo intenso de público para prestigiar artistas que operam nas margens do que um festival daquele porte usualmente promove. Ele foi prova do potencial que apostar em algo diferente.

HM: Se, por acaso, encontrasse o seu “eu” logo no começo da jornada que trouxe até aqui, o que diria? 

TN: É uma loucura isso que a gente faz, mas tudo dá certo se você tem em mãos as ferramentas adequadas para ajudar na construção daquilo que sonha. Lembro que, quando comecei tudo, tentei buscar algum conhecimento a respeito, fosse um curso, um tutorial ou até uma graduação e aí eu percebi que já possuía esse saber. Então eu diria para mim mesma: vai que tem espaço. Vai dar certo, ainda que não seja fácil 

HM: E para o futuro, no que a MADRE PRODUTORA pensa e planeja?

TN: Olha se tem uma coisa que não falta é DJ e eu não posso abraçar todo mundo, o foco agora é cuidar bem dos que tenho, mas vejo adiante a materialização de algo que sempre quis: fundar e manter um espaço educacional. Uma iniciativa que visa capacitar pessoas que, como eu, queiram ajudar artistas a realizarem suas visões. Exatamente o que eu buscava lá atrás e não encontrei.

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