No século XX, vários países passaram por períodos de instabilidade política, ditaduras ou guerras, o que molda uma nação e também o caráter de uma juventude muitas vezes reclusa, revoltada e com sede pela vida. Nesse cenário, a música teve papel fundamental na luta do povo em muitas regiões, como já havia sido anteriormente em outros contextos. Como esquecer da opressão ao samba, a caça aos cantores da MPB, a cultura hip hop gritando a realidade das favelas e periferias e o rock sendo porta voz da população contra governos autoritários? A música sempre andou lado a lado com a política, principalmente por ser uma forma de expressão e possibilidade de externar para todos uma visão ou opinião.
Onde tem música, tem jovens se divertindo, sendo livres e podendo se articular, o que é tudo que muitos governos nas décadas de 60, 70, 80 e 90 não queriam. Nem precisamos revisitar as origens da música eletrônica e seus pioneiros para contextualizar o movimento no final dos anos 80 nos EUA. Quando a cultura clubber e seus princípios começam a chegar em outros locais e ganhar força, governos autoritários ou muito conservadores se movimentaram para frear seu avanço. É o exemplo do Brasil durante o Regime Militar.

Existem cenas que cresceram rapidamente quando a dance music chega após o término de um período conflituoso com as pessoas querendo recuperar o tempo perdido e os novos governantes abrindo as fronteiras para novas influências culturais e tecnológicas. Argentina, após a ditadura que foi até 1983, Alemanha com a queda do muro de Berlim, África do Sul quando se viu livre do apartheid, Inglaterra com o governo querendo proibir as raves e Israel com seus constantes combates com outros países desde sua criação.
Todos esses polos que hoje são extremamente importantes para a música eletrônica mundial forjaram sua cena em contextos políticos dolorosos para a nação. Essa é a base de um dos maiores mercados do mundo, hoje avaliado em 12,9 bilhões de dólares, segundo o IMS Business Report 2025.
Recentemente, vimos vídeos de jovens ucranianos organizando pequenas raves para limpar os destroços deixados pela guerra com a Rússia. A música foi a forma que encontraram para diminuir a dor de ter que reconstruir suas cidades destruídas por conflito político.

Por outro lado, a Holanda que também é histórica dentro da música eletrônica, teve uma fácil aceitação das raves e clubes no país devido à cultura liberal. A forma de viver dos holandeses combinou de forma quase imediata com os valores da dance music, tendo uma aceitação e desenvolvimento muito rápidos.
Dentro da especificidade de cada local onde a música eletrônica se desenvolve, além do público e dos governos, os DJs são também agentes fundamentais. Por exemplo, Hernan Cattaneo se tornou um ídolo nacional na Argentina por toda sua luta para que os eventos fossem vistos com outros olhos e flexibilizados. Além de que podem utilizar seu tamanho e influência para convites à reflexão, debate e posicionamento do público consumidor.
No mundo de hoje, é muito comum vermos comentários na internet dizendo que é preciso separar a música da política. Mas como? Já que todo o histórico prévio do movimento ao qual eles fazem parte está diretamente ligada a conflitos políticos? É muito importante que ao se dispor a entrar em um mercado tão complexo como o musical, se tenha clareza sobre o que representa aquele espaço e quem são as pessoas envolvidas ali. Ignorar essa conexão é apagar a essência de um movimento que sempre pulsou com o coração da resistência.
Por Adriano Canestri
