Review: O instituto espiritual e a jornada final de Guy J no templo

O Templo não cansa de nos proporcionar noites históricas. Entrando em sua reta final, o lendário clube de Itajaí mostrou sua força com noite de praticamente ingressos esgotados, apresentando o consagrado DJ e produtor Israelense Guy J. Ainda parece que a ‘’ficha não caiu’’ dentro do imaginário coletivo dos frequentadores, mas sim, são os últimos eventos do Warung, que promete seguir até abril de 2026. 

No último dia 11 de julho, ocorreu uma daquelas noites que marcam e mudam a vida de clubbers e artistas. Anunciado com bastante antecedência e comemorado por todos, o retorno de Guy J após 3 anos foi se desenhando para ser uma das festas do ano, ainda que em pleno inverno, não foi barreira para pessoas de todos os lados do país virem viver a famosa ‘’experiência no templo’’

Este review é mais do que especial, pois além de expectador, tive a oportunidade de ajudar a encaixar as peças na montagem do line-up. Através da Epicenter Artists, onde faço parte, assinamos a curadoria do Garden com um Show Case da agência. A Epicenter surgiu com foco em artistas de progressive house, estilo que inegavelmente mais combina com a vibe do clube. 

Bianco Vargas e Wilian Kraupp, dois nomes de Santa Catarina com experiência de tocar no Warung, foram escolhidos para gerar uma segurança na entrega musical. Ainda, pudemos indicar Tonaco para o warm-up no main room, ele também foi escalado para encerrar o Garden. Dois sets em uma noite, algo que poucos já fizeram, a primeira e última, realmente um acontecimento para marcar os primeiros passos de sua carreira que já é reconhecida como um dos principais talentos da cena sul americana.  

Um garoto de 25 anos que, sozinho em Palmas, conquistou atenção de grandes produtores de todo mundo, um deles Guy J, que vem suportando suas tracks no último ano. Nada mais justo, quando ocorreu a oportunidade, Tonaco foi o nome lógico para abrir a noite! É claro que qualquer um, até mesmo caras com décadas de pista, sentem a pressão daquela pista fervorosa que parece querer invadir o palco. Tonaco tirou a pressão em um gesto simples, porém importante: ir fazer um sound check no clube um dia antes, sentir a energia daquele local sagrado, agora intitulado ‘’Spiritual Institute’’ pelo próprio Guy J. 

Começar com a pista vazia, seguir o plano, executá-lo com tranquilidade, acelerar o ritmo bem de leve, por groove e soltar uma ou duas doses de energia, só para mostrar que também sabe. Destaco em seu set ‘’Cream Of Lolita’’ (Tonaco Edit) de Julian Millan, com um vocal em loop que impressionou uma pista que estava cheia antes da meia noite. 

Baixar a intensidade e quando Guy chegar, bater nas suas costas, ver que o trabalho foi bem feito e lhe dar um abraço. Tonaco fez parecer que era algo normal, mas não. Sua maior inspiração no mesmo palco, um sonho de centenas de outros produtores.

 Na última faixa, ele jogou um vocal chamando ‘’The DJs coming’’, em uma levada perfeita para passar o bastão.

Tão boa que Guy J ‘’setou’’ um loop na música deixada e sem parar iniciou sua sinfonia sonora com nada menos que ‘’Lamur’’, um dos seus primeiros sucessos na carreira. Ela faz parte do lindo álbum 1000 Words, lançado pela Bedrock em 2011. Simplesmente ouçam. 

Para os fãs mais antigos, foi um aceno: ‘’eu sei que vocês estão aí’’. Foram mais de 6 minutos de introdução, com muitos aplausos e expectativa. Lembrou-me quando foi a vez de Guy J estrear e ter seu ídolo John Digweed assumindo a pista também com um som totalmente atmosférico. 

Aliás, a referência a 2012 foi muito bem feita quando Tonaco tocou a faixa ‘’Soul Motion’’ (& ME Remix) de Magit Cacoon, que fez muito sucesso naquela oportunidade no set do Guy J, que você pode ouvir abaixo. 

 A pista queria, esperava que Guy J desatasse muitos nós emocionais internos, não era noite somente para intensidade, mas sim de construção de set e muita sinergia com o público. O ‘’baixinho’’ mostrou mais uma vez porque é um dos melhores DJs do mundo na atualidade. A sensação na pista era de uma energia pronta para explodir, parecia aquela época do Sasha 2005/2010, quando tocava com a Maven e toda vez que aparecia no palco uma euforia inexplicável se formava. Destaco duas faixas com lindos vocais em sua primeira hora de set; ‘’Rabbit Hole (Dave DK Remix) – Sasheen & Ashtenn e também ‘’Different, feat Xira’’ de Volen Sentir & Marsh. Vozes femininas que deixaram todos flutuando, ainda que estivessem um tanto encaixotados no dance floor. 

Uma noite de celebração e sem dúvidas do melhor acontecimento de 2025 para nossa agência que completou apenas 7 meses de existência. Era para ver amigos, falar com pessoas e prestigiar nossos artistas e isso demandaria abrir mão de partes do set de Guy J. Com mais de 15 anos de Warung e tendo visto todas as vezes que ele veio, pude fazer isso sem culpa. 

No Garden, Bianco Vargas tocou por 3h30. Até 01h30. Um set excelente, fazendo muitas pessoas permanecerem na pista desde o início. Destaco um edit do Moby que ele tocou. 

Wilian Kraupp, que já havia tocado no clube com nomes como Marco Carola e Marcel Dettmann, agora em sua nova fase voltada ao progressive house, pegou a pista e fez com que cada um que descesse devido ao transbordo do main, ficasse no Garden e literalmente entrasse em uma hipnose progressiva de três horas, variando com intensidade e momentos de tensão na medida.

Destaco a faixa ‘’St John’’ de Aubrey Fry & Nick Stoynoff, dois dos meus produtores favoritos no momento. 

Sem dúvidas um dos melhores sets que ouvi em 2025, tanto é que não voltei a subir para o Guy J até ele finalizar às 04h30. Senti que deveria prestigiar um grande DJ nacional ao lado de muitos amigos. Os vídeos falam por si só, você pode ver abaixo. 

Quando subi novamente, descobri que Guy J estava simplesmente quebrando tudo, tendo tocado Octavia e Fixation, essa me doeu perder, pois é uma das favoritas dele. O tracklist de todas que descobri estará no final do texto. Ainda destaco o remix de Mano Le Tough para ‘’Try’’, ‘’Onix’’ de Berni Turtelli e ‘’A Prelude to’’ de Sahar Z, Navar, um dos melhores lançamentos da Lost & Found records. 

E o que dizer da energia que se criou no break de ‘’Metal Dreams’’? As luzes azuis, o sussurro das pessoas em meio a tensão, o clima soturno que Guy J importou de um tal HC. Isso é Warung e o vídeo da Ana baixo diz tudo. 

Patch Park ‘’Shine On’’! Que absurdo de track, mais ao estilo Diggers que Guy J vem incorporando cada vez mais, mistério, seriedade, um vocal feminino que fica revirando sua mente por dias e dias. 

Podemos falar de bombas? Sim, destaco ‘’My Beat’’ (Guy J edit). Ela possui um vocal potente da banda Blaze de 1997, onde no break somos confrontados com a seguinte questão; 

‘’Can You Dance With My Beat?’’ Mas é claro, então a energia se dissipou em uma explosão sonora que só Guy J é capaz de produzir. 

O que falar do nunca lançado remix de ‘’Dream Universe’’ ? Essa faixa resume bem o que foi seu set. Uma melodia linda, hipnotizante, aquela sensação de que estávamos em outra parte do cosmos. Essa é uma daquelas faixas que ele só toca em momentos especiais, precisa haver uma certa vibe para ela fazer sentido. 

Na última hora, não tem como deixar de mencionar ‘’Escape’’ com remix dele, trazendo o lendário vocal ‘’Driving to Heaven’’, sem dúvidas um dos grandes clássicos do progressive house, que ganhou notoriedade na compilação Global Underground do Deep Dish – Moscow em 2001. 

Todos estavam contando que o set iria terminar as 7, já com o dia claro e talvez um lindo sol para coroar uma noite mágica. Porém ao chegar próximo das 06h, ele foi dando sinais de baixar o ritmo. A faixa mais aguardada da noite entra para fechar o set. Lost & Found é algo difícil de pôr em palavras e eu fico muito feliz por ela ter se tornado a faixa favorita de muitas pessoas.

Nunca vou esquecer a primeira vez que ouvi ela, novamente voltando ao ano de 2012, através das mãos de el maestro nessa mesma pista. Naquela ocasião, ainda era uma track promocional, lembro de vidrar no envolvimento de Hernan com ela e a energia do Warung com luzes vermelhas em cima dele. 

Meses depois descobrimos que era do Guy J e mais tarde se tornaria o nome de sua hoje extinta gravadora, responsável por lançar toda uma nova geração de produtores e reescrever a história do progressive house. A vontade era de chorar por tudo que significa ver uma música atravessar o tempo e se tornar clássico, sendo tocada por seu criador em sua última noite no ‘’Spiritual Institute’’.  Um filme passou pela minha cabeça sobre tantas coisas vividas ali e o sentimento de ‘’vencemos’’ surgiu no final. Sim, o estilo de música que amamos está no nível que sempre mereceu voltar, dando sold out no clube que tanto apostou neste tipo sonoro. 

O fim nunca é o fim, após muitos aplausos, outra faixa vem para dar o golpe final. ‘’The Pills Won’t Help You Now (Guy J Edit) da Banda eletrônica Chemical Brothers. Esse edit ele havia tocado em seu inesquecível set no Garden de 2017. Agora, o lindo vocal com uma mensagem poderosa e uma melodia sentimental, ecoou pelo pistão. O post da Ana Track ID viralizou eternizando o momento. 

A sensação de acabar sem a luz do sol foi muito esquisita e frustrante, confesso. Porquê seu staff reservou um jato logo às 08h? Enfim, detalhes que fazem a diferença, ele precisava ir para Mendoza e não era possível seguir. Isso não tira o brilho de um set digno de último Warung. 

O melhor desta apresentação foi o fato de Guy J abrir cada vez mais espaço para outros produtores, fazendo seu set ser mais dinâmico e interessante, absorver texturas distintas, ainda que com características que ele preza, era algo que estava faltando em suas apresentações. Se nos últimos tempos ele vinha tocando 70, 80% de faixa autorais, agora baixou para 50%, e isso faz toda diferença. É claro que as suas músicas sempre serão o núcleo base dos seus sets, a sua força motriz e seu diferencial, que advém de sua infinita capacidade de gerar novas faixas de alto nível. 

Guy J está no auge de entendimento do que é preciso para fazer um grande set e é muito legal acompanhar esse crescimento artístico. Algo que eu não pude ter com outros heróis, pois quando comecei a frequentar a cena, eles já eram os mestres, já estavam consolidados. 

Com Guy J, pude acompanhar desde seu primeiro álbum em 2008 chamar atenção do mundo por sua estética sonora única. Com os anos ele se tornar um grande DJ ‘’cabeça de chave’’ como diriam no tênis. Sem dúvidas o Warung tem um papel importante nesse processo. De trazer ele como um ‘’pupilo’’ do John Digweed em 2012, até conceder o status de artista principal com long sets. O Templo foi um dos primeiros a fazer isso e não é qualquer um recebe uma noite para chamar de sua na casa. Guy J teve seu merecido retorno na jornada final, que não poderia acontecer sem ele e sua música que tanto representa a verdadeira ‘’alma do templo.’’

O Garden continuou até às 07h, fazendo história como nos velhos tempos, com um b2b de Tonaco e Bianco na meia hora final. A pista super lotou com todos descendo do main e ‘’caindo’’ por ali só para curtir um pouco mais de boa música. Próxima Parada: The Last Journey com Guy Gerber! 

Você ver todos os vídeos do show case no Garden abaixo:

Todos os vídeos do main room abaixo:

Setlist Guy J

Guy J – Lamur

Sasheen & Ashtenn – Rabbit Hole (Dave DK Remix)

Volen Sentir & Marsh – Different Feat Xira. 

Guy J – Octavia

Guy J – Fixation

Tomas Briski – Kupalo (Tonaco Remix)

Enduro Disco – Little Horny (Guy J Edit)

Tantum – unblur

Dyzen – Try (Mano le tough remix) 

Patch Park – Shine On

C.M – Dream Universe (Guy J remix)

Sahar Z, Navar – A prelude to 

SaharZ & Navar – When we face reality (Khen remix)

Guy J – Metal Dreams

Mike Rish – Platform

Berni Turletti – Onix 

Blaze – My Beat (Guy J Edit Vocal) Can you dance with my beat

Guy J -Lost & Found

Omid 16b – Escape Driving to Heaven (Guy j edit)

Chemical Brothers – The Pill will not help you (Guy J edit)

Por Jonas Fachi

Fotos: Maira Dill

Deixe um comentário

Fique por dentro