Review: São Paulo se rende ao progressive house de Hernan Cattaneo em sua festa Sunsetstrip 

Sunsetstrip! Um dos eventos de maior prestígio na América do Sul e idealizado por Hernan Cattaneo, finalmente teve sua edição brasileira no último dia 20 de setembro. Criado com o objetivo de alterar a percepção sobre música eletrônica na Argentina, desde que começou em 2019 vem chamando atenção da grande mídia em Buenos Aires, muito pela qualidade organizacional, limpeza, decoração, tudo aliado a proposta de iniciar ao final da tarde, onde todos na sociedade podem ir e entender que um evento de música eletrônica pode ter a mesma seriedade e qualidade de um grande show internacional de rock ou outro estilo popular. 

Funcionou, por lá, hoje o evento recebe mais de 40 mil pessoas na capital e conta com versões em Mendoza, Puta del Este e Montreal no Canadá. Como disse Hernan em entrevista recente a housemag: ‘’vir ao Brasil era um caminho natural…’’ e São Paulo foi a cidade escolhida. O Argentino possui histórico de se apresentar na selva de pedra desde os anos 90, passando pelo festival Skol Beats, um período de hiato e outros shows recentes como Piknic e Warung Tour. É sabido que seu grande público está no Sul, especialmente por conta do Templo, onde se consolidou ao longo de 23 anos como o nome internacional com mais horas de set tocadas na história do clube. 

São Paulo tem sua cena mais ligada ao techno, entretanto é uma cidade em transformação e realizar a edição Brasileira do Sunsetstrip na cidade foi um desafio que que as produtoras locais: MZKZM, NO LIMITS e HUSH em conjunto com o time da Buena, vindo direto da Argentina, cumpriram com maestria. 

Anunciado no já conhecido Hangar do aeroporto Campo de Marte, o evento causou fervor entre os fãs do artista, afinal muitos ainda não puderam ir a Argentina prestigia-lo e quem já foi, também gostaria de ver um pouco daquela magia em nosso país. O alto nível de serviço é carro chefe, banheiros limpos, atendimento premium e claro, a marca registrada do telão com imagens que se conectam com a sua música progressiva. 

O sábado amanheceu com sol e céu azul na cidade conhecida por sua aura cinzenta e cyberpunk. Simplesmente um dia atípico e perfeito, combinando com a proposta, além de 25 graus na medida. Tudo conspirava para um evento histórico, cheguei lá por volta das 17h30, e a convidada BLANCAh apresentava sua águia sonora de forma mística e com bpms leves.

 Um destaque vai para quando tocou a faixa ‘The Garden of Morning Calm’’, oriunda de seu novo álbum lançado em junho. Os dois já haviam tocado juntos em outras oportunidades e Blancah prestigiou Sunsetstrip em Mendoza, então ela sabia bem do que se tratava e da responsabilidade em entregar algo na medida. E assim fez, ao final tocou ‘’Lanarka’’ do Sebastien Léger com o sol caindo atrás da pista, um momento lindo e inspirador. O local estava quase cheio, com público por volta de 3500 pessoas, criando uma atmosfera coletiva que poucas vezes havia experimentado na capital. Abaixo Full set:

Hernán surge de trás do telão na última música e espera BLANCAh finalizar. Após aplausos e um forte abraço de reconhecimento, ele assume a pista do zero sob olhares atentos. 

Hernán é um daqueles seres que detêm algo raro: AURA. Apenas com a presença, toma conta do ambiente, ou neste caso, do palco. É algo que não é possível copiar ou aprender – você possui ou não. 

Sobre seu set, vou ser bem direto: seminal, uma aula de construção, condução sonora, onde até quem não gosta ou entende o estilo, acaba se rendendo, afinal, é algo que te envolve e abraça até que a força das batidas leve ao delírio. 

Desde um deep house com vocais dançante, até climas soturnos com o escurecer se apresentando, foi realmente o que eu senti segundos antes dele iniciar: algo especial estaria por vir. Catta vinha de 2 semanas de férias, com ‘’ganas’’ de tocar, como dizem os argentinos. 

O mais legal de tudo é ver que Hernán não mediu esforços para encaixar tracks de quase todos os produtores Brasileiros que haviam enviado promos. Era o evento dele, todos ansiavam por receber o tão sonhado suporte do mestre, a validação de horas e horas de estúdio, checar se a track estava soando bem, coisas que só quem faz música sabe. O canal progressive Brasil fez um compilado dos suportes, confira abaixo.

Luciano Scheffer, André Morét, Tonaco, Alec Araújo, Hans Gerd, Anonimat, Goraieb, Gorkiz, Togni, Rigooni, Morttagua, Neo Classic, Maasaki, entre outros, abriram sorriso enquanto viam diante dos olhos a pista vibrar com suas faixas. 

Hernán sabe da importância de suportar uma cena local, ele faz isso como ninguém ao redor do mundo e o Brasil está hoje com uma geração de um nível realmente impressionante. Em 10 anos, nosso país poderá ser um dos líderes globais, junto com a argentina, deste estilo musical. 

Participar de uma experiência como essa, que tantas e tantas vezes tive a oportunidade de ver ao longo dos últimos 15 anos, é como receber uma inserção cognitiva que estimula novas criações, que traz novas ideias, que gera novas obras; inspiração. Hernán é um eterno gerador de novos sets, ele não vive de nostalgia ou do passado, Hernán, no auge dos seus 60 anos e mais de 40 de carreira, vive o presente, vive o melhor toda vez que sobe ao palco. 

Como se pintasse sempre um quadro diferente com as mesmas cores, cores que se traduzem em linhas de baixo potentes, arranjos tribais, melodias quentes e por vezes lisérgicas. Hernan junta produtores em algo altamente original, que serve como base para desenvolvimentos futuros. 

Como estava tudo funcionando muito bem, ou seja, estava cheio, porém havia espaço para dançar, fui ao front, encontrei amigos argentinos, alias haviam muitos, senti de perto aquele velho feeling de ver a pista acontecendo como se tivéssemos em um clube fechado, a imersão das pessoas em um túnel sonoro e claro, as sequencias viscerais de trocas de energia entre artista e público.

Por vezes quando o telão focava em cores quentes, a luz refletia na pista e isso criava um espelho com os prédios de São Paulo que se via distante. Aliás preciso falar do incrível trabalho dos fotógrafos mencionados no início do texto, especialmente do Victor Vargas, fotos que poderiam fazer parte de um álbum de carreira, com efeitos e pontos de vista únicos. 

Um grande fotografo com uma pista e um telão pode produzir coisas especiais. As imagens projetadas do Sunsetstrip não são maiores do que as música e o artista, são parte de um conjunto e elas tem padrões abstratos que ajudam a ativar sensações nas pessoas sendo impactadas pela música. A equipe do Hernán é hoje quem mais sabe usar isso a favor do artista e não acima dele. Aula. Abaixo um álbum lindo de imagens que falam por si. 

Hernán é um senhor do tempo, nas suas mãos, ele é distorcido e comprimido em uma viagem única onde você para de olhar o celular, apenas flui em conjunto e quando se dá conta, já se passaram 7 horas. O que era para finalizar meia noite, se estendeu até 01h, sinal de que ele estava satisfeito e queria dar esse presente a todos que vieram de vários estados para vê-lo. 

Destaco ainda músicas de artistas como  Depeche Mode (my eyes edit), Moderat em eating hooks edit!!! Marc Romboy & John Digweed, Sasha com Aviator, Aubrey Fry, Simon Vuarambon edit de Chemical Brothers,, Ezequiel Arias, Nicolas Viana, Kamilo Sanclemente, Antrim e faixas dele mesmo como um edit de ‘’love is coming back’’.  

Nesse review, resolvi não mencionar os nomes das músicas como sempre faço, e sim dar enfase nos produtores, porém, deixei reservado para comentar 3 músicas que foram muito marcantes pessoalmente: ‘’1998’’ de Binary, um trance originalmente lançado em 1999 e que se tornou clássico com remix de Paul Van Dyk, recentemente recebeu remixes de Victor Ruiz e Anfisa Letyago. 

Porém, para variar, a versão que mais encaixou com ela foi a de Chicola, dando vida a uma melodia de arpejos muito distinta. Que momento, a pista se elevou e as mãos para cima foram inevitáveis. 

Outra que me abriu um sorriso e eu jamais esperava foi ‘’Armed’’ de Pryda, lançada a primeira vez em 2007 e que com certeza marcou minha adolescência, sendo a base de tudo que viria depois. Eu não lembro de Hernán tocar Prydz nesses anos todos que acompanho, então realmente foi um coelho que ele tirou da cartola. 

No encerramento do set eu havia ido para o lado da pista, afim de acessar o back stage e trocarmos umas palavras. Então Hernán escolhe uma das minhas faixas favoritas de 2025 ‘’Broken Glass’’ do Booka Shade (Helsloot remix). 

Eu a ouvi sendo tocada pelo Deep Dish no Balance Festival em agosto e postei no Instagram algumas vezes como ela me marcou. Corri de volta para o front e acenei para ele em agradecimento. Catta me viu e fez um sinal que só eu pude entender. 

São tantos e tantos anos tentando ajudar a projetar esse estilo musical, com a liderança e amizade do eterno #1, que a gente acaba as vezes perdendo a noção do impacto que nossas ações causam na cena, a sua mensagem para mim me situou de volta; continue. A música parou e todos estavam extasiados, como deveria ser. 2026 teremos mais. 

Deixo um vídeo vlog do meu amigo Argentino Pablo Appe, com vários momentos do evento. 

Por Jonas Fachi

Fotos por @fusao.organica / @danylomarttin / @victoorvargaas

Deixe um comentário

Fique por dentro