Em um mercado musical cada vez mais competitivo e impulsionado por transformações constantes no consumo de música, o trabalho dos profissionais de A&R (Artists and Repertoire) se tornou ainda mais estratégico. Responsáveis por descobrir talentos, desenvolver carreiras e conectar artistas às oportunidades certas, esses profissionais desempenham um papel fundamental na construção de projetos de sucesso dentro da indústria.
Para entender melhor os desafios, tendências e os bastidores desse trabalho, conversamos com João Campos, A&R da ONErpm, uma das principais empresas de distribuição musical e soluções para artistas independentes do mundo. Na entrevista, ele compartilha sua visão sobre desafios, importância e função de um profissional dessa área.

1. Descreva o que é o seu trabalho no mercado de música eletrônica.
Meu trabalho como A&R é descobrir talentos, desenvolver artistas e criar pontes entre artistas, labels e o mercado. No dia a dia, estou sempre ouvindo músicas novas, acompanhando tendências, conversando com artistas, gravadoras, empresários e outros profissionais da indústria para entender onde cada projeto pode chegar e qual caminho faz mais sentido para ele.
Na ONErpm, esse trabalho envolve olhar para a música de forma estratégica. Não é só sobre distribuir um lançamento, mas entender o posicionamento do artista ou da label, pensar em oportunidades de crescimento, conectar o projeto com plataformas, campanhas, conteúdo, playlists, comunicação e relacionamento com o mercado. Dentro da música eletrônica, onde as labels independentes têm um papel muito forte na construção de cenas, comunidades e novos movimentos, esse trabalho se torna ainda mais importante.
2. Qual a importância do seu trabalho para a cena?
Acredito que o A&R tem um papel importante na renovação da cena. É um trabalho de escuta, conexão e direção. Estamos sempre atentos a novos artistas, novos sons, novas labels e oportunidades que podem ajudar a movimentar o mercado.
Quando a gente acredita em um projeto e consegue dar a orientação certa, isso pode abrir portas para o artista, fortalecer uma label e também inspirar outras pessoas dentro da cena. Hoje, muitas labels independentes têm uma força enorme na música eletrônica, porque conseguem construir identidade, formar comunidade e lançar tendências com muita velocidade. Na ONErpm, nosso papel é ajudar esses projetos a se estruturarem melhor, ampliarem seu alcance e se conectarem com o público certo.
3. Quais as maiores alegrias e dores que você tem na vida profissional?
A melhor parte é ver um artista evoluindo. É muito gratificante acompanhar alguém desde o começo e depois ver uma música, uma campanha ou um projeto ganhando espaço. Também é muito bom ver uma label crescendo, criando uma identidade forte e se tornando referência dentro do seu nicho.
A parte mais difícil é entender que nem sempre as coisas acontecem no tempo que a gente gostaria. Às vezes você acredita muito em uma música ou em um artista, mas o resultado demora a aparecer. O mercado é competitivo, muda rápido e exige consistência. Por isso, é preciso estar sempre aprendendo, ouvindo coisas novas, analisando comportamento de consumo e se adaptando.
Hoje, com essa dupla atuação como A&R na ONErpm e Produtor / TM do Vegas, a rotina fica ainda mais intensa. É praticamente um trabalho 7 por 7. Mas quando você ama música eletrônica e acredita no que faz, a força vem naturalmente e a gente segue.
4. Como você chegou a este cargo durante sua carreira? O que alguém que queira trabalhar na área deve fazer para se condicionar?
Minha carreira sempre foi muito ligada à música. Passei por gestão de artistas, produção, turnês e relacionamento com profissionais da indústria. Essa experiência me deu uma visão ampla de como o mercado funciona, desde o lado artístico até o operacional e estratégico.
Com o tempo, fui desenvolvendo um olhar mais atento para identificar talentos, entender o potencial de uma música, perceber o momento certo de um projeto e enxergar como artistas e labels podem crescer de forma mais consistente.
Para quem quer trabalhar nessa área, eu diria que o principal é viver o mercado de verdade. Ouvir muita música, acompanhar lançamentos, entender o funcionamento das plataformas, observar o comportamento do público e criar conexões reais com pessoas do meio. Networking faz diferença, mas curiosidade, repertório e vontade de aprender são fundamentais. Também é importante entender que o trabalho não é só gostar de música. É preciso ter visão estratégica, organização, sensibilidade artística e capacidade de transformar boas ideias em projetos viáveis.
5. Conte um bastidor/perrengue que é comum para quem trabalha nesta função.
Na ONErpm, até o momento, felizmente, ainda não passei por nenhum grande perrengue. Claro que existem os desafios normais da rotina, como ajustar prazos, alinhar campanhas, organizar lançamentos e lidar com muitas demandas ao mesmo tempo, mas nada fora do comum.
Como Produtor / TM do Vegas, já vivi vários bastidores intensos. Um dos mais marcantes foi na minha primeira tour na Índia com o Vegas. Eu não segui alguns conselhos básicos de cuidado durante a viagem e acabei passando cinco dias com febre, delirando e praticamente sem conseguir sair do quarto do hotel. Mesmo muito mal, ainda tinha uma tour de três datas acontecendo e, depois disso, uma volta para o Brasil com cerca de 35 horas de voo.
Foi uma experiência bem difícil, mas também virou aprendizado. Quem trabalha com música, principalmente na estrada, precisa estar preparado para resolver problemas, manter a calma e seguir em frente mesmo quando as condições não são ideais. Esse lado dos bastidores ensina muito sobre responsabilidade, resiliência e comprometimento com o projeto.
Você já conhecia os bastidores da carreira de um A&R?
Por Adriano Canestri
