No mês do orgulho LGBTQIAPN+ é importante abrir espaço e dar visibilidade a questões importantes envolvendo a comunidade e sua relação com a música eletrônica no Brasil.
Pessoas LGBT+ ocupam uma fatia expressiva na cena, seja na produção de eventos, atuando nos bastidores, produzindo músicas, nos decks ou na pista, portanto é importante questionar se há de fato uma abertura para eles, principalmente se tratando de eventos mainstream.
Para isso, convidamos 7 pessoas que vivem o mercado para responder 3 perguntas e deixarem seu ponto de vista a respeito do tema. Confira a seguir.
Perguntas
1) Na sua visão, os eventos de música eletrônica mainstream no Brasil promovem a diversidade nos line ups? Há uma abertura para artistas LGBT?
2) A música eletrônica é um espaço seguro para o público e profissionais LGBT?
3) Quais são suas maiores dores e alegrias como uma pessoa da comunidade LGBT que vive a música eletrônica no Brasil?
Ella de Vuono – DJ e produtora

1) Minimamente, naquela famosa cota. Sim, uma micro abertura quase nula existe em um ou outro evento, não podemos negar.
2) Depende de onde. Os espaços que frequento, sim. Muito disso se deve à curadoria diversa, tanto de line up quanto de staff. Afinal, só um staff que entende a dor do outro vai se preocupar com tal questão. Se o line up for pouco diverso ou nada diverso, eu nem me dou o trabalho pois sei que terei dor de cabeça e também não quero frequentar lugares que não se importam com o básico: diversidade.
3) A maior dor é a invisibilidade dentro da própria comunidade. Consigo contar nos dedos quais festas LGBT+ já toquei e foi coisa de uma, duas vezes. E falta de pista cheia dançando não é. Você tem noção que em 21 anos de carreira este foi o 1º ano que tive uma agenda de fim de semana do Orgulho? E isso se estende para outras DJs LGBT+ pioneiras que acredito que deveriam estar nesses line ups e não estão, como a Andrea Gram e a Glaucia++.
Minha maior alegria é o reconhecimento genuíno da comunidade trans, essas são minhas de fé que estão comigo no meu front, são tantas que me apoiam e que eu faço o possível pra retribuir tanto reconhecimento da parte delas.
Etcetera – DJ, produtora e co-fundadora da festa Warehouse

1) Existe sim esse espaço, porém eu infelizmente sinto um leve retrocesso nesse ponto atualmente, parece que voltamos ao espaço de “cota”, e essa atenção se volta mais a comunidade em momentos oportunos, já foi mais natural essa inserção nos line ups.
Mas sim, esse espaço existe no mainstream mas ainda conseguimos contar nos dedos as labels que abraçam a comunidade, temos um caminho ainda pela frente a evoluir, mas ele segue sendo feito!
2) Eu acredito que sim porem nao de forma geral, ainda há algumas festas e eventos onde nao nos sentimos completamente confortáveis em relação a segurança, acho que ainda precisamos avançar em relação a treinamento de equipe e staff para que saibam lidar com mais cuidado em algumas ocasiões, mas eu sinto um avanço otimo nesse ponto nos últimos anos, tenho vivido algumas pistas onde as diferenças seguem se respeitando e vivendo juntos a musica e o momento.
3) Olha, delicada essa… dos amores, com certeza o fato de ser uma artista trans, vindo da arte drag e conseguindo ocupar espaços cada vez maiores sem que esses detalhes atrapalhem, poder ser um exemplo e alguém que ajuda a abrir mais portas é incrível.
Ver o crescimento de labels e festas LGBT se consolidando como grandes eventos respeitados pela cena eletrônica me enche de orgulho e esperança, mas em contrapartida me dói ainda ter que me provar em alguns momentos, ouvir em algumas tratativas sobre a dificuldade de levar artistas Lgbt’s a determinadas regiões e espaços, acompanhar algumas labels LGBT onde a atenção se volta mais a artistas de fora da comunidade do que a nomes que tomam frente a nossa existência há muito mais tempo. O apagamento de artistas Lgbt que estão há anos abrindo espaço e pouco a pouco perdendo o próprio me deixa muito triste.
Daniel Peixoto – Vocalista da Montage e DJ

1) Essa é uma pauta delicada porque a cultura como um todo está muito nichada, criam-se as bolhas e os grupos procuram onde pertencem, mas acredito que, infelizmente, isso tem diminuído sim nos últimos anos. Eu com minha banda Montage fui headline na última edição do Skol Beats por exemplo, ao lado de Justice e Armin van Buuren em 2008, no ano seguinte nós abrimos a turnê do The Prodigy… Claro que existem artistas queers em grandes eventos, mas o protagonismo diminuiu.
2) Sim, a comunidade LGBTQIAPN+ foi também uma grande responsável pela surgimento e popularização do gênero no mundo, não podemos esquecer Wendy Carlos, mulher trans vencedora de 3 Grammys em 1970, usando seus próprios sintetizadores… De lá pra cá a eletrônica e nossa comunidade andaram lado a lado e existem ao redor do mundo festas, clubes, eventos gigantes e undergrounds onde nós podemos transitar e celebrar nossos corpos, história e resistência!
3) Pessoalmente eu tenho muito orgulho de ter criado a primeira banda de electropunk do Brasil, esse pioneirismo como artista LGBT e vindo do Ceará me deixa muito orgulhoso e feliz por fazer parte da construção dessa história que para muitos, assim como eu, somos apaixonados por esse mundo e lifestyle… O que é triste é o apagamento histórico, as massas não conhecerem nem valorizarem todos os que deram seu suor e sangue na construção dessa cena, hoje gigante! É preciso valorizar todos os profissionais da cena clubber que abriram portas, sejam eles LGBTs ou não. Não é correto acreditar que essa contracultura hoje já não tão contra assim (risos) surgiu ontem, é preciso olhar para trás quando se mira no futuro. A pista de dança não é um lugar novo, mas segue plural e será eterno!
Gustavo Bezzi – DJ e fundador da festa House No Jardim

1) Quando penso em diversidade, ainda não consigo enxergá-la de forma consistente nos line ups dos principais eventos mainstream no Brasil.
Percebo que alguns movimentos vêm acontecendo nos últimos anos. Há, sim, uma inserção maior de artistas LGBTQIAPN+, mas, de maneira geral, ainda é tímida.
Falta representatividade real e, principalmente, um olhar mais atento (e sensível) por parte de quem está à frente da curadoria.
2) Eu me sinto seguro, sobretudo, nos espaços construídos pela minha própria comunidade. Quando falamos de festas e festivais que não são necessariamente voltados ao público LGBTQIAPN+, acredito que podem, sim, ser ambientes seguros, mas nem sempre são igualmente acolhedores. Existe uma diferença importante entre segurança e pertencimento, e isso ainda é um ponto a ser desenvolvido em muitos desses espaços.
3) A house music tem raízes profundamente queer, pretas e latinas e, como parte da comunidade gay, eu me sinto pertencente a esse movimento. Essa é, sem dúvida, minha maior alegria. É muito potente olhar para a pista e me reconhecer em quem está ali, criar conexões através da música e ocupar espaços onde eu me sinto seguro sendo quem eu sou. Ao mesmo tempo, ainda existem desafios ligados à representatividade e ao reconhecimento, mas sigo encontrando na música um lugar de resistência, expressão e realização.
Suzana Haddad – DJ e criadora dos coletivos Vampire Haus e Pvtas Vampiras

1) Nos últimos 15 anos, considero que alguns de nós artistas LGBTQia+ fizemos uma grande revolução na cena eletrônica brasileira. Com mãos próprias criamos um novo corpo espetáculo que se tornou um palco de acessos, experimentação, celebração, autodescobrimento e territórios seguros para a comunidade LGBTQia+ dentro cena eletrónica Brasileira. Nossas manifestações artísticas como Vampire Haus, do Bloco das Putas Vampiras, Mamba Negra, Carlos Capslock, Batekoo, Blum, Sangra Muta, Odd, Chernobyl e outras servem de modelo para Brasil e mundo todo. Colocamos o Brasil no mapa de festivais como Time Warp, DGTL, Dekmantel, Primavera Sound, Sonar e tornamos a cena eletrônica aqui uma das mais desejadas do universo. Isso forçou o mainstream e o business a olhar para nós, e entender que é a gente que dá vida para o negócio deles. Não existe eles sem a gente, sem o que criamos. Eles precisaram abrir o espaço como um meio de sobrevivência deles mesmo. Nós LGBTQia+, somos tanto a base, quanto a cereja do bolo. No entanto, infelismente percebo que funcionamos muito mais como carros alegóricos, sinônimo de hype, ou como pink money, do que de fato como uma inclusão política ou consciente. Não só no Brasil, mas no mundo. Além disso, percebo que quando existe a inclusão de corpos LGBTQia+ vejo muito um loop repetido, a dinâmica do mainstream de não apostar realmente na inclusão de fato, mas de usar apenas alguns mesmos nomes que se mantém, e que eles consideram “safe” para eles. Para muitos ainda somos sinônimo de risco e ameaça a heteronormatividade. A gente essusta. E não é só Brasil, é mundo. E essa dinâmica reflete na reprodução de espaços fake LGBTQia+ e espaços inseguros.
2) Como uma pessoa não binária, lésbica e artista, líder de uma manifestação artística pura e genuína, que vive e respira a pixta de dança no Brasil desde meus 12 anos de idade, e tem feito tours no mundo todo, vivendo o dj booth e a pixta de dança, considero que o mainstream da cena eletrônica está cada vez mais inseguro. Brasil e mundo. Apenas a cena eletrônica construída DYI por artistas e pessoas LGBTQia+ para pessoas LGBTQia+ para mim são os espaços seguros que restam. E mesmo assim, existe tb uma discussão dentro da própria comunidade LGBTQia+ sobre os homens cis da sigla, que gerou a criação da sigla FLINTA na Alemanha. Isso tem me feito repensar que pista de dança que estamos criando quando aceitamos tocar no mainstream e como essa cena está investindo para ser um espaço seguro para nós. O mainstream não entendeu que não é só através de representatividade no line up, nos incluindo nesse sentido, que será um espaço seguro. Precisamos que tudo seja pensado como experiência completa. Desde o segurança que revista na portaria, até a pessoa que te atende com os pronomes corretos. Já toquei em festa mainstream que levei meu público em massa e muitos sofreram violência. O que me faz repensar todos os espaços.
3) Minha maior alegria, é poder espalhar para o mundo que fui uma das pessoas que encabeçou um movimento, que tornou o fato de ser LGBTQ possível para muita gente. As pessoas me param na rua para falar que puderam se assumir LGBTQia+ depois de passarem por um galpão com todas as queers dançando loucamente na mesa de uma libero badaró ou deocleciana, com uma luz piscando e um techno poderoso rodando. Poder viver essa cena brasileira específica que criamos com outros coletivos que citei, e que citei teve essa trajetória de magica. Minha maior dor, é ver que fora desses espaços que criamos, infelizmente, a cena geral é insegura. DEmos tudo de nós para criar uma cena que se mistura, a rua é sobre misturar e não sobre esconder os corpos LGBTQia+. Se misturar deveria ser o objetivo de todos, pois acredito que é quando quebramos muros, é que as idéias circulam e é quando ocorrem as trocas. Porém vejo que a cena está tão insegura, que nos misturar muitas vezes significa sofrer muita violência, e isso limita nossos acessos e circulação. Deveríamos estar, ocupar e acessar todos os espaços que queremos.
Nicky Iglesias – DJ

1 – Os eventos mainstream separam até ingressos por gênero, logo não. Ainda há muita segregação e falta de atenção pra diversidade nesses espaços.
2 – A MÚSICA eletrônica em si é altamente Queer e sempre foi um espaço de resistência através dessa arte sonora.
3- minha maior dor é ver espaços dominados por homens e gêneros musicais altamente comerciais, muita das vezes sem identidade e fechados apenas entre eles. A minha maior alegria é saber que toco e faço parte de grupos/coletivos que pensam sempre em trazer referências e artistas bons e ao mesmo tempo diversos, cada um trazendo sua identidade
Marta Supernova

1) Acho que houve um avanço importante nos últimos anos. Hoje existe uma preocupação maior em construir line ups mais diversos do que existia há uma década. Mas ainda vejo que essa diversidade muitas vezes fica concentrada em alguns nomes ou em determinados eventos. O mainstream ainda não reflete a dimensão da cena LGBTQIAPN+ que existe na música eletrônica brasileira. Temos uma quantidade enorme de festas independentes, DJs, produtores, coletivos e um público LGBTQIAPN+ que movimenta essa cultura há muitos anos. O desafio agora é que essa representatividade deixe de ser exceção e passe a fazer parte da estrutura do mercado. Existe abertura para artistas LGBTQIAPN+, mas ela ainda precisa vir acompanhada de continuidade, investimento e, principalmente, confiança no trabalho dessas pessoas.
2) A música eletrônica nasceu muito ligada às comunidades negras, latinas e LGBTQIAPN+, então esse legado ainda faz dela um dos ambientes mais acolhedores que conheço. Ao mesmo tempo, acho importante não tratar a cena como se ela fosse homogênea. Existem nichos e eventos onde pessoas LGBTQIAPN+ circulam naturalmente e se sentem muito acolhidas, mas também existem espaços que ainda são predominantemente heteronormativos, onde a presença de pessoas LGBTQIAPN+, especialmente pessoas trans e casais homoafetivos, é muito menor.
Acho que vale a pena olhar para onde a comunidade realmente escolhe estar. Isso diz muito sobre quais ambientes conseguem transformar o discurso de inclusão em uma experiência concreta de pertencimento. Nenhum espaço está livre de reproduzir preconceitos da sociedade, e justamente por isso esse debate continua sendo importante. O desafio é preservar essa cultura de respeito, alegria e coletividade que deu origem à música eletrônica e ampliar esse sentimento de segurança para toda a cena, não apenas para alguns recortes dela.
3) Minha maior alegria é fazer parte de uma cultura que nasceu da diversidade e que me permitiu construir uma carreira sendo quem eu sou. A noite sempre foi um espaço de encontro para pessoas LGBTQIAPN+. Para muita gente, especialmente antes das redes sociais, era o lugar onde finalmente encontrava pessoas parecidas consigo. Acho muito bonito observar como tantas pessoas LGBTQIAPN+ permanecem na vida noturna por décadas. Enquanto para muitas pessoas heterossexuais esse é apenas um momento da juventude, para muitas pessoas da nossa comunidade a pista continua sendo um espaço de encontro, de pertencimento e de liberdade para experimentar formas de existir que nem sempre encontram lugar no cotidiano.
Por Adriano Canestri
