Problemas estruturais estão acontecendo com frequência nos eventos. Como isso impacta as marcas e o público?

A música eletrônica brasileira vive um dos momentos mais relevantes de sua história.Os festivais, clubes e eventos independentes cresceram em tamanho, profissionalizaram suas produções, passaram a disputar artistas cada vez mais requisitados, atraíram grandes patrocinadores e conquistaram reconhecimento internacional  Ao mesmo tempo, o setor passou a lidar com um cenário econômico mais desafiador, marcado pelo aumento dos custos de produção em praticamente todas as etapas de um evento.

Esse contexto inevitavelmente se reflete no valor pago pelo consumidor final, resultado de uma cadeia de custos que envolve estruturas temporárias, logística, transporte, equipes, fornecedores, tecnologias, impostos, licenças e, no caso de atrações internacionais, também a influência do câmbio. É um cenário que desafia produtores em busca de equilíbrio financeiro sem comprometer a qualidade da entrega que o público da música eletrônica se acostumou no Brasil nos últimos anos.

Ao mesmo tempo em que esse mercado amadurece, cresce também a expectativa de quem frequenta. E isso não acontece apenas pelo investimento financeiro necessário para participar de um festival, mas porque o próprio conceito desses eventos mudou nos últimos anos. Hoje, a música em si continua sendo o principal motivo que leva milhares de pessoas às pistas, ao mesmo tempo que dificilmente ela é o único elemento que define uma experiência memorável.

Os eventos passaram a construir narrativas próprias, desenvolver identidades visuais que chamam atenção, investir em cenografia, ativações, hospitalidade, sustentabilidade, experiências que fogem do comum e no senso de comunidade. E isso ocorre tanto no mainstream quanto no underground. A proposta deixou de ser apenas reunir grandes artistas em um mesmo palco para oferecer uma vivência completa, capaz de conectar pessoas em torno de um mesmo propósito.

É justamente nesse cenário que questões estruturais têm ganhado cada vez mais espaço nos debates após as festas. Ao passo que as festas crescem, aumentando sua influência nas regiões, relatos sobre longas filas, dificuldade de circulação, superlotação, banheiros sujos ou sem água, palcos desabando, falta de pontos de hidratação, áreas comuns congestionadas ou desafios na administração de grandes públicos têm aparecido recorrentemente no Brasil. 

Embora cada caso tenha suas particularidades, eles levantam uma discussão maior: como garantir que a experiência prometida seja acompanhada por uma operação capaz de sustentá-la?

Essa é uma pergunta que não possui uma resposta simples. Produzir um evento que envolve tantos detalhes nunca foi nem será uma tarefa fácil, e fazê-lo em um mercado cada vez mais competitivo tornou esse desafio ainda maior. Conciliar investimentos em line-up, cenografia, estrutura, operação, segurança e conforto exige escolhas complexas, especialmente em um cenário de custos elevados e margens cada vez mais pressionadas.

Paralelamente, a infraestrutura deixou de ser apenas um aspecto operacional para se tornar parte da identidade de um evento. A experiência do público começa muito antes do primeiro DJ subir ao palco. Ela passa pelo acesso ao local, pela facilidade de circulação, pelo tempo de espera nos bares, pela limpeza dos banheiros, pela comunicação da organização, pela disponibilidade de água, pela sensação de segurança e por diversos detalhes que, somados, influenciam diretamente a percepção de quem esteve ali.

Essa percepção também ganhou uma nova dimensão com as redes sociais. Hoje, a reputação de um festival é construída não apenas pelas imagens oficiais ou pelos vídeos dos shows, mas também pelos relatos espontâneos do público. Uma operação bem executada fortalece a confiança na marca, incentiva o retorno do público e gera recomendações naturais. Da mesma forma, problemas recorrentes podem impactar a imagem do evento e influenciar decisões de compra para as próximas edições. 

Além de fidelizar quem já faz parte da cena, uma boa experiência também desempenha um papel importante na renovação desse público. A música eletrônica segue sendo um segmento de nicho no Brasil e precisa da chegada constante de novos frequentadores para continuar crescendo. Para quem participa de um festival pela primeira vez, aspectos como organização, conforto e acolhimento podem ser tão determinantes quanto o próprio line-up na decisão de voltar.

Por isso, discutir infraestrutura não significa reduzir a importância da música, nem desconsiderar os desafios enfrentados pelos organizadores. Pelo contrário. Significa reconhecer que, em um mercado cada vez mais profissionalizado, a experiência se tornou um dos ativos mais valiosos de um evento. 

Encontrar o equilíbrio entre viabilidade econômica, operação eficiente e qualidade na entrega se tornou um fator chave nos próximos passos para a evolução da música eletrônica brasileira.

Por Adriano Canestri

Deixe um comentário

Fique por dentro